Versão em desenvolvimento, apresentada no exame de qualificação (MPEC/UFOP). Itens marcados como “em desenvolvimento” serão disponibilizados nas próximas versões.
Guia CoP-R
Formação continuada construída entre professores.
Orientações, pautas formativas editáveis e recursos para criar e desenvolver Comunidades de Prática em Rede no ensino de Ciências e Biologia.
Como criar espaços de formação continuada nos quais os professores possam compartilhar experiências, discutir desafios e construir conhecimentos a partir de suas próprias práticas?
O Guia CoP-R foi desenvolvido para apoiar a criação, a organização e o desenvolvimento de Comunidades de Prática em Rede (CoP-R) entre professores de Ciências e Biologia. A proposta valoriza o diálogo, a colaboração e o protagonismo docente, reconhecendo os professores como sujeitos ativos de sua formação profissional.
Este guia é um produto educacional desenvolvido no âmbito do Mestrado Profissional em Ensino de Ciências da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), a partir de uma pesquisa sobre as contribuições e os desafios das Comunidades de Prática em Rede para a formação continuada e a inovação pedagógica.
Sua elaboração foi fundamentada na literatura acadêmica e na experiência de uma CoP-R piloto, desenvolvida em 2025, com oito encontros virtuais realizados ao longo de três meses. Durante esse percurso, professores de diferentes contextos escolares compartilharam vivências, discutiram dificuldades do ensino de Ciências e Biologia e participaram da elaboração de propostas e materiais pedagógicos.
Para quem é este guia?
O material é destinado principalmente a professores de Ciências e Biologia interessados em participar, organizar ou mediar espaços colaborativos de formação continuada. Também poderá apoiar coordenadores pedagógicos, formadores e outros profissionais da educação que desejem desenvolver iniciativas semelhantes.
Como utilizar o guia?
Compreender: conheça os fundamentos e as características de uma Comunidade de Prática em Rede.
Planejar: encontre orientações e instrumentos para iniciar e organizar sua comunidade.
Cultivar: explore estratégias para mediar encontros, favorecer a participação e acompanhar o desenvolvimento do grupo.
Compartilhar: conheça pautas formativas inspiradas em desafios e experiências docentes, com propostas de discussão e atividades colaborativas.
Além das orientações, você encontrará uma Biblioteca de Recursos, com modelos, formulários, materiais didáticos e instrumentos de apoio. As pautas formativas poderão ser baixadas em Word, permitindo sua edição e adaptação às necessidades de cada comunidade.
Este não é um roteiro rígido. Os eixos, os materiais e as pautas são sugestões que podem ser utilizados em diferentes momentos, conforme os interesses dos participantes e as condições de cada contexto.
Figura 1Três caminhos pelo guia
Organizar uma comunidade
1Eixo 1Compreender
2Eixo 2Planejar
3Eixo 3Cultivar
Preparar uma formação específica
1Escolher uma pautaEixo 4
2Ler o objetivo
3Baixar o Wordeditável
4Abrir os materiais
Consultar um material
1Biblioteca
2Buscar ou filtrarpor tema ou categoria
3Acessar o recurso
Os eixos e as pautas podem ser usados em diferentes momentos. Um mesmo recurso abre o mesmo arquivo pelo eixo, pela pauta ou pela Biblioteca.
A proposta é oferecer referências e ferramentas para que outros professores possam construir seus próprios caminhos de formação, em diálogo com seus pares e com os desafios de suas práticas profissionais.
Antes de iniciar uma Comunidade de Prática em Rede, vale compreender o que caracteriza esse espaço formativo, quais relações o sustentam e por que pode fazer sentido para professores de Ciências e Biologia. Este eixo reúne os conceitos essenciais, exemplos da experiência piloto e cuidados éticos para a organização de iniciativas semelhantes.
A formação de um professor não termina com a conclusão da licenciatura. Ao longo da trajetória profissional, surgem novos desafios, mudanças curriculares, transformações tecnológicas e situações que exigem a atualização e a reelaboração dos conhecimentos utilizados no cotidiano escolar.
Nesse sentido, a formação continuada integra um processo permanente de desenvolvimento profissional, no qual os professores ampliam seus conhecimentos, analisam suas experiências e constroem novas possibilidades de atuação (Gatti et al., 2019; Nóvoa, 2017, 2022).
Entretanto, nem sempre as oportunidades formativas consideram as necessidades concretas dos docentes. Cursos, palestras e oficinas podem contribuir para o aperfeiçoamento profissional, mas, quando organizados sem a participação dos professores ou sem relação com suas realidades, correm o risco de oferecer respostas pouco adequadas aos desafios vivenciados nas escolas.
André e Martins (2020) defendem a importância de processos formativos contínuos, planejados coletivamente e articulados aos contextos de atuação dos professores. Nessa perspectiva, a formação deixa de ser compreendida apenas como transmissão de conhecimentos e passa a reconhecer o professor como participante ativo de seu próprio desenvolvimento profissional.
Aprender com outros professores
Os professores acumulam conhecimentos ao longo de suas trajetórias, construídos nas relações com estudantes, colegas, instituições e comunidades escolares. Essas experiências constituem importantes referências para compreender problemas educacionais e pensar possibilidades de intervenção.
Ao defender uma formação construída a partir da própria profissão, Nóvoa (2012) destaca a importância da participação dos professores na formação de seus pares.
A colaboração docente oferece oportunidades para compartilhar experiências, discutir dificuldades, examinar diferentes perspectivas e elaborar estratégias fundamentadas para o ensino.
Colaborar, entretanto, não significa apenas reunir professores para conversar ou compartilhar materiais. O trabalho colaborativo envolve a participação em torno de questões comuns, a escuta de diferentes experiências, a negociação de ideias e a construção conjunta de conhecimentos e possibilidades de ação.
Para que isso aconteça, são necessárias condições de participação, objetivos compartilhados, mediação adequada e valorização dos conhecimentos profissionais dos envolvidos.
Figura 2Colaborar é mais do que reunir professores
Reunir e compartilhar
Conversar
Trocar materiais
→
Trabalho colaborativo
Questões comuns
Escuta de diferentes experiências
Negociação de ideias
Construção conjunta de conhecimentos e possibilidades de ação
Condições necessáriasCondições de participaçãoObjetivos compartilhadosMediação adequadaValorização dos conhecimentos profissionais
A colaboração docente como possibilidade formativa: o que diferencia o trabalho colaborativo da simples reunião de professores (seção 1.1).
A formação continuada no ensino de Ciências e Biologia
Os professores de Ciências e Biologia enfrentam desafios relacionados tanto à complexidade dos conhecimentos científicos quanto às condições em que esses conhecimentos são ensinados.
Entre eles, destacam-se as dificuldades de abordar determinados conceitos, a necessidade de contextualizar conteúdos científicos, as limitações de recursos pedagógicos e as tensões sociais e culturais que envolvem temas como evolução biológica, sexualidade e questões ambientais.
Azevedo, Borba e Selles (2020) discutem como disputas sociais e tentativas de regulação do ensino podem interferir na autonomia e nas decisões pedagógicas dos professores de Ciências e Biologia.
Diante dessas questões, a formação continuada pode constituir um espaço para estudar problemas compartilhados, conhecer diferentes experiências escolares e discutir alternativas fundamentadas científica e pedagogicamente.
A colaboração entre professores que atuam em diferentes instituições e realidades também amplia as possibilidades de conhecer práticas, recursos e formas de organização do ensino que podem ser analisadas e adaptadas a outros contextos.
Da formação individual à aprendizagem coletiva
Reconhecer a importância da colaboração não significa desconsiderar o estudo individual ou outras modalidades de formação. Trata-se de ampliar as possibilidades formativas, incluindo espaços nos quais os professores participem das decisões, compartilhem responsabilidades e possam aprender uns com os outros.
É nesse contexto que as Comunidades de Prática se apresentam como uma possibilidade de organização da formação continuada, articulando participação, aprendizagem e experiências relacionadas a uma prática profissional compartilhada.
Na próxima seção, compreenderemos o que caracteriza uma Comunidade de Prática e por que ela não deve ser confundida com qualquer grupo de estudos ou reunião de professores.
1.2O que é uma Comunidade de Prática?
Você já compartilhou uma dificuldade da sala de aula com outro professor e descobriu que ele enfrentava uma situação semelhante? Ou participou de uma conversa entre colegas que resultou em novas ideias, materiais ou maneiras de ensinar?
Essas experiências mostram como a interação entre professores pode favorecer a aprendizagem profissional. Entretanto, nem toda reunião ou troca de experiências caracteriza uma Comunidade de Prática (CoP).
Uma Comunidade de Prática constitui-se a partir das relações entre pessoas que compartilham um campo de interesse ou atuação e desenvolvem conhecimentos por meio da participação em práticas comuns. Seus integrantes interagem, discutem problemas, compartilham experiências e constroem maneiras de compreender e desenvolver suas atividades.
O conceito está relacionado aos estudos de Jean Lave e Etienne Wenger (1991), que desenvolveram a perspectiva da aprendizagem situada, compreendendo a aprendizagem como parte das relações sociais e das práticas em que as pessoas participam.
Nessa perspectiva, aprender não significa apenas receber informações ou adquirir conhecimentos individualmente. A aprendizagem também acontece quando participamos de atividades coletivas, interagimos com outras pessoas e construímos significados relacionados àquilo que fazemos.
Aprender pela participação
Lave e Wenger (1991) apresentam a noção de participação periférica legítima para compreender como novos integrantes aprendem ao participar de práticas sociais compartilhadas.
Em uma comunidade, os participantes podem apresentar diferentes níveis de experiência, conhecimentos e formas de envolvimento. Ao interagirem com outros membros e participarem das atividades, ampliam suas possibilidades de aprendizagem e contribuição.
No contexto docente, isso significa reconhecer que professores em diferentes momentos da carreira podem aprender uns com os outros. Um professor iniciante pode compartilhar conhecimentos recentes de sua formação, enquanto um professor experiente pode contribuir com situações e estratégias construídas ao longo de sua trajetória profissional.
Assim, a experiência de cada integrante pode contribuir para a aprendizagem coletiva, sem que o conhecimento esteja concentrado exclusivamente em um único participante.
Uma Comunidade de Prática é mais do que um grupo de professores
Segundo Imbernón, Shigunov Neto e Silva (2020), uma Comunidade de Prática não deve ser confundida com qualquer grupo de pessoas que compartilha interesses profissionais.
Sua constituição envolve relações de participação, compromisso com questões comuns e desenvolvimento de práticas compartilhadas.
Isso significa que criar um grupo de mensagens, organizar reuniões virtuais ou reunir professores de uma mesma disciplina não é suficiente para constituir uma Comunidade de Prática.
Por exemplo, um grupo de professores de Biologia pode utilizar um aplicativo de mensagens exclusivamente para receber avisos e materiais. Embora exista uma rede de comunicação, isso não significa necessariamente que seus integrantes estejam desenvolvendo uma prática comunitária.
Por outro lado, quando professores passam a discutir dificuldades de ensino, analisar experiências, planejar estratégias e construir recursos de forma compartilhada, podem desenvolver relações e práticas características de uma Comunidade de Prática.
O que diferencia essas experiências não é apenas a existência de encontros ou ferramentas de comunicação, mas a maneira como os participantes se envolvem, aprendem e constroem conhecimentos relacionados à prática profissional.
Figura 3Mesma ferramenta, participações diferentes
Rede de comunicação
Grupo de mensagens usado só para receber avisos e materiais
→
Práticas de uma Comunidade de Prática
Discutir dificuldades de ensino
Analisar experiências
Planejar estratégias
Construir recursos de forma compartilhada
Um grupo de professores de Biologia pode existir como rede de comunicação sem desenvolver uma prática comunitária. O que muda é a maneira como os participantes se envolvem (seção 1.2).
Conhecimentos construídos na prática docente
Ao longo da carreira, os professores desenvolvem conhecimentos que nem sempre estão registrados em livros, artigos ou documentos pedagógicos.
São conhecimentos construídos nas experiências de planejamento, nas relações com os estudantes, na adaptação de atividades e no enfrentamento dos desafios cotidianos.
Imbernón, Shigunov Neto e Silva (2020) destacam que as Comunidades de Prática podem favorecer o compartilhamento e a explicitação desses conhecimentos profissionais, permitindo que experiências individuais sejam comunicadas, discutidas e reelaboradas coletivamente.
Assim, uma estratégia desenvolvida por um professor pode tornar-se objeto de reflexão de todo o grupo. Outros integrantes podem questioná-la, propor adaptações, relacioná-la a conhecimentos pedagógicos e científicos e considerar sua utilização em diferentes realidades escolares.
A colaboração não exige que todos concordem ou utilizem as mesmas estratégias. Ao contrário, as diferenças entre experiências e contextos podem enriquecer as discussões e contribuir para a construção de novas possibilidades de atuação.
Como reconhecer uma Comunidade de Prática?
As Comunidades de Prática podem apresentar diferentes formas de organização, mas algumas características ajudam a compreender sua constituição:
Interesses e questões compartilhadas: os participantes reconhecem um campo de conhecimento ou prática que os aproxima.
Participação e envolvimento: os integrantes estabelecem relações e contribuem, de diferentes maneiras, para o desenvolvimento das atividades.
Aprendizagem coletiva: as interações possibilitam compartilhar, discutir e reelaborar conhecimentos.
Construção de práticas compartilhadas: a comunidade desenvolve conhecimentos, recursos, estratégias e formas de atuação relacionados aos interesses de seus membros.
Continuidade das relações: a comunidade se desenvolve ao longo do tempo, conforme os participantes constroem vínculos, compromissos e experiências em comum.
Essas características não devem ser compreendidas como uma lista rígida de requisitos. Elas ajudam a reconhecer processos que podem se desenvolver nas relações entre os participantes.
Uma Comunidade de Prática não nasce pronta. Ela se constitui e se transforma à medida que seus integrantes participam, aprendem e desenvolvem práticas compartilhadas.
Na próxima seção, conheceremos três elementos que ajudam a compreender e orientar sua organização: domínio, comunidade e prática.
1.3Domínio, comunidade e prática
O que faz um grupo de pessoas se reconhecer como uma comunidade? O que mantém seus integrantes envolvidos e permite que construam conhecimentos ao longo do tempo?
Wenger, McDermott e Snyder (2002 apud Rodrigues; Silva; Miskulin, 2017, p. 23) apresentam três elementos fundamentais que caracterizam as Comunidades de Prática: domínio, comunidade e prática. Esses elementos estão relacionados entre si e ajudam a compreender como pessoas que compartilham interesses e desafios profissionais podem desenvolver relações de aprendizagem e construir conhecimentos coletivamente.
Domínio — O que nos une?
O domínio corresponde ao campo de conhecimento, interesse ou conjunto de questões que aproxima os participantes e contribui para a construção da identidade da comunidade (Wenger; McDermott; Snyder, 2002 apud Rodrigues; Silva; Miskulin, 2017, p. 23).
Em uma CoP formada por professores de Ciências e Biologia, o domínio pode estar relacionado ao ensino dessas disciplinas e aos desafios pedagógicos enfrentados pelos docentes.
Entretanto, compartilhar a mesma área profissional não significa necessariamente possuir os mesmos interesses ou necessidades formativas.
Um grupo pode, por exemplo, decidir concentrar suas discussões no ensino de conteúdos científicos de difícil compreensão, na utilização de metodologias investigativas ou na elaboração de recursos pedagógicos acessíveis.
O domínio precisa ser significativo para os participantes e pode ser discutido e redefinido ao longo da trajetória da comunidade.
Para refletirQuais interesses, conhecimentos ou desafios profissionais aproximam os integrantes da nossa comunidade?
Comunidade — Quem aprende conosco?
A comunidade refere-se às pessoas e às relações construídas por meio da participação, das interações e do envolvimento em atividades relacionadas ao domínio compartilhado (Wenger; McDermott; Snyder, 2002 apud Rodrigues; Silva; Miskulin, 2017, p. 23).
Se o domínio representa aquilo que aproxima os participantes, a comunidade se desenvolve por meio das relações que eles estabelecem.
Em uma CoP de professores, essas relações podem ocorrer durante encontros formativos, discussões em ambientes virtuais, compartilhamento de experiências e desenvolvimento de atividades conjuntas.
Imbernón, Shigunov Neto e Silva (2020, p. 168–169) destacam que as Comunidades de Prática não se caracterizam apenas pela reunião de pessoas com interesses semelhantes, mas pelo envolvimento dos participantes e pelo compartilhamento de conhecimentos relacionados à prática.
Para favorecer essas relações, é importante construir espaços de respeito, escuta e confiança, nos quais os docentes possam apresentar suas experiências, questionar ideias e contribuir com diferentes perspectivas.
Isso não significa que todos devam participar da mesma maneira ou concordar em todas as discussões. As diferenças de experiências, conhecimentos e contextos profissionais também podem contribuir para a aprendizagem coletiva.
Para refletirComo podemos construir relações que favoreçam a participação, a confiança e a aprendizagem entre os professores?
Prática — O que construímos juntos?
A prática compreende os conhecimentos, recursos, experiências e maneiras de desenvolver atividades que os integrantes compartilham e constroem ao longo de sua participação na comunidade (Wenger; McDermott; Snyder, 2002 apud Rodrigues; Silva; Miskulin, 2017, p. 23).
Em uma comunidade docente, a prática pode envolver a discussão de estratégias de ensino, o planejamento de aulas, a análise de situações escolares, a elaboração de materiais didáticos e a reflexão sobre experiências profissionais.
Imbernón, Shigunov Neto e Silva (2020) discutem que as Comunidades de Prática podem favorecer o compartilhamento e a explicitação de conhecimentos profissionais construídos pelos professores, possibilitando que experiências individuais sejam comunicadas e reelaboradas coletivamente.
Por exemplo, professores que identificam dificuldades comuns no ensino de Genética podem compartilhar estratégias utilizadas em suas escolas, discutir suas limitações e construir coletivamente uma sequência didática adaptável a diferentes turmas.
Nesse processo, não importa apenas o material produzido, mas também as discussões, decisões e aprendizagens construídas durante sua elaboração.
A prática compartilhada não se limita à produção de recursos físicos ou digitais. Ela também envolve conhecimentos profissionais, linguagens, experiências e maneiras de compreender e enfrentar desafios comuns.
Para refletirQuais conhecimentos, estratégias ou recursos estamos desenvolvendo e compartilhando como comunidade?
Como esses elementos se relacionam?
Domínio, comunidade e prática não funcionam isoladamente. Sua articulação permite compreender como os interesses compartilhados, as relações entre os participantes e o desenvolvimento de conhecimentos e recursos contribuem para a constituição de uma Comunidade de Prática (Wenger; McDermott; Snyder, 2002 apud Rodrigues; Silva; Miskulin, 2017, p. 23).
Imagine um grupo de professores de Ciências preocupado com o baixo interesse dos estudantes pelas aulas de Botânica.
O desafio compartilhado pode constituir um ponto de partida para definir o domínio. Ao estabelecerem encontros e espaços de discussão, os participantes começam a desenvolver relações que poderão sustentar a comunidade. Quando passam a compartilhar experiências, analisar estratégias e construir propostas de ensino, desenvolvem aspectos de uma prática compartilhada.
Figura 4Domínio, comunidade e prática
Exemplo: baixo interesse dos estudantes pelas aulas de Botânica
DomínioO desafio compartilhado é o ponto de partida.
ComunidadeEncontros e espaços de discussão criam relações.
PráticaCompartilhar experiências, analisar estratégias e construir propostas de ensino.
Os três elementos que caracterizam uma Comunidade de Prática (Wenger; McDermott; Snyder, 2002 apud Rodrigues; Silva; Miskulin, 2017) e como aparecem no exemplo da seção 1.3. A presença dos três em uma atividade isolada não garante a constituição de uma CoP.
Entretanto, a presença desses elementos em uma atividade isolada não garante a constituição de uma Comunidade de Prática. Conforme discutem Imbernón, Shigunov Neto e Silva (2020, p. 168–169), sua caracterização envolve relações de participação e compromisso com práticas compartilhadas, não se reduzindo à existência de um grupo de pessoas com interesses profissionais semelhantes.
Compreender essa articulação é importante para quem deseja organizar uma CoP-R. Mais do que definir um tema, escolher uma plataforma digital ou estabelecer um cronograma, é necessário criar condições para que os participantes construam vínculos, negociem interesses e desenvolvam conhecimentos relacionados à sua prática profissional.
No próximo tópico, veremos como essas relações podem se desenvolver em ambientes digitais e quais possibilidades e desafios caracterizam as Comunidades de Prática em Rede.
1.4O que é uma Comunidade de Prática em Rede?
Imagine professores de Ciências e Biologia que atuam em diferentes escolas, cidades ou estados, mas compartilham desafios semelhantes em suas salas de aula. Embora estejam geograficamente distantes, esses profissionais podem encontrar nos ambientes digitais oportunidades para dialogar, compartilhar experiências e construir conhecimentos coletivamente.
É nesse contexto que se inserem as Comunidades de Prática em Rede (CoP-R), compreendidas como possibilidades de organização da aprendizagem e da colaboração entre profissionais por meio de interações mediadas por tecnologias digitais.
Santos e Rausch (2025, p. 9–12) apresentam as CoP-R a partir da articulação entre os fundamentos das Comunidades de Prática, a cibercultura e a aprendizagem colaborativa mediada por tecnologias. Nessa perspectiva, os ambientes digitais podem ampliar as possibilidades de participação e produção coletiva, permitindo que professores estabeleçam relações para além dos limites geográficos de suas instituições.
Entretanto, a utilização de ferramentas digitais, por si só, não constitui uma CoP-R. Sua organização precisa preservar características fundamentais das Comunidades de Prática, como o envolvimento dos participantes em questões compartilhadas, a construção de relações e o desenvolvimento de conhecimentos relacionados à prática profissional.
O que muda quando uma Comunidade de Prática se desenvolve em rede?
A comunicação digital permite que professores participem de discussões, compartilhem recursos e mantenham contato mesmo quando não trabalham na mesma instituição ou região.
Salvador et al. (2017, p. 18–21), ao investigarem uma comunidade virtual de aprendizagem destinada a professores de Biologia, identificaram possibilidades de interação entre docentes de diferentes localidades, com circulação de questões relacionadas ao conhecimento biológico e ao ensino.
Embora os autores utilizem a denominação comunidade virtual de aprendizagem, e não CoP-R, o estudo oferece contribuições para compreender como ambientes digitais podem favorecer o compartilhamento de experiências e a formação docente.
Essas interações podem ocorrer de diferentes maneiras:
Encontros síncronos: reuniões virtuais em tempo real, destinadas a debates, estudos, planejamento e atividades colaborativas.
Interações assíncronas: discussões em fóruns, grupos de mensagens e espaços digitais, permitindo que os participantes contribuam em momentos diferentes.
Compartilhamento de recursos: organização de arquivos, referências bibliográficas, apresentações, planos de aula e materiais pedagógicos.
Produção colaborativa: elaboração conjunta de documentos, atividades e propostas de ensino utilizando ferramentas digitais.
Essas possibilidades não precisam ocorrer simultaneamente nem exigir o uso de muitas plataformas. O mais importante é que os recursos escolhidos favoreçam as relações e as atividades que a comunidade deseja desenvolver.
Santos e Rausch (2025, p. 9–12) ressaltam que as contribuições das tecnologias à formação continuada dependem de uma apropriação pedagógica que favoreça a participação, o diálogo e a construção conjunta do conhecimento.
Quais são as possibilidades para a formação docente?
As CoP-R podem aproximar professores que vivenciam diferentes condições de trabalho e possuem experiências profissionais diversas.
Essa aproximação permite conhecer estratégias desenvolvidas em outros contextos escolares, examinar dificuldades compartilhadas e discutir alternativas pedagógicas.
No campo do ensino de Ciências e Biologia, uma comunidade pode reunir docentes interessados em problematizar o ensino de conteúdos complexos, discutir temas socialmente controversos ou desenvolver recursos didáticos acessíveis a diferentes realidades.
Em uma revisão da literatura sobre Comunidades de Prática no Ensino de Ciências, Mega et al. (2020) identificaram experiências relacionadas à formação de professores, à interlocução entre escolas e universidades e à elaboração e circulação de inovações didáticas.
Dessa forma, as CoP-R podem ampliar oportunidades de interação e colaboração profissional, especialmente quando as atividades partem de questões consideradas relevantes pelos participantes.
Contudo, essas contribuições não são automáticas. Elas dependem das relações construídas, das condições de participação e da maneira como os conhecimentos são discutidos e desenvolvidos no grupo.
Desafios da participação em ambientes digitais
Embora os recursos tecnológicos ampliem as possibilidades de comunicação, manter uma comunidade ativa envolve desafios.
Machado, Wives e Grandi (2019, p. 2002) identificaram, entre os fatores apontados por participantes como motivos efetivos ou possíveis de abandono de comunidades virtuais, a escassez de interações, dificuldades no uso das ferramentas, problemas na mediação e baixa qualidade dos materiais compartilhados.
Salvador et al. (2017, p. 19–21) também observaram que muitos espaços de discussão criados na comunidade investigada tiveram pouca adesão, demonstrando que disponibilizar ferramentas e conteúdos não garante a participação.
No cotidiano dos professores, esses desafios podem se somar à sobrecarga de trabalho, às dificuldades para conciliar horários e às diferentes condições de acesso e familiaridade com as tecnologias.
Por isso, a organização de uma CoP-R requer atenção à escolha dos ambientes digitais, à relevância das atividades propostas, à mediação das interações e às condições concretas de participação dos membros.
Figura 5O que muda quando a comunidade se desenvolve em rede
Possibilidades
Aproximar professores de escolas, cidades e estados diferentes
Contribuir em momentos diferentes, de forma assíncrona
Organizar e compartilhar recursos
Produzir documentos e propostas em conjunto
Desafios
Escassez de interações
Dificuldades no uso das ferramentas
Problemas na mediação
Baixa qualidade dos materiais compartilhados
Sobrecarga de trabalho e conflito de horários
Diferentes condições de acesso às tecnologias
Ferramentas digitais+Questões compartilhadas+Relações entre os participantes+Conhecimentos da prática=CoP-R
Os ambientes digitais ampliam as possibilidades de participação, mas a ferramenta sozinha não constitui uma CoP-R (Salvador et al., 2017; Machado; Wives; Grandi, 2019; Santos; Rausch, 2025).
Criar ou cultivar uma comunidade?
Mais do que criar um grupo em uma plataforma digital, desenvolver uma CoP-R envolve cultivar relações e oportunidades de aprendizagem compartilhada.
Souza, Araujo e Veit (2022, p. 13–15), ao proporem diretrizes para o cultivo de Comunidades de Prática na formação continuada de professores de Ciências da Natureza, destacam a importância de considerar os profissionais envolvidos, seus interesses, expectativas e possibilidades de participação.
Os autores também ressaltam que as relações comunitárias não podem ser inteiramente previstas. Por essa razão, a organização da comunidade precisa permitir que os participantes contribuam para a definição e a transformação de seus percursos formativos.
Isso significa que uma CoP-R pode iniciar suas atividades com um planejamento, mas seus temas, estratégias e formas de participação podem ser negociados e aperfeiçoados ao longo do tempo.
O objetivo não é apenas manter encontros virtuais, mas favorecer condições para que os professores desenvolvam relações de colaboração e aprendizagem em torno de sua prática profissional.
Nos próximos eixos deste guia, apresentaremos orientações e ferramentas que poderão auxiliar no planejamento, na implementação e no cultivo dessas comunidades, considerando tanto suas possibilidades quanto os desafios envolvidos em seu desenvolvimento.
1.5Por que uma CoP-R de Ciências e Biologia?
Ensinar Ciências e Biologia envolve muito mais do que apresentar conceitos científicos. Os professores dessas disciplinas precisam relacionar conhecimentos a situações cotidianas, acompanhar transformações científicas e tecnológicas e encontrar estratégias para abordar conteúdos complexos e questões que despertam diferentes posicionamentos na sociedade.
Esses desafios assumem características próprias conforme a etapa de ensino, as condições da escola e as experiências dos estudantes. Por isso, a formação continuada precisa considerar tanto os conhecimentos científicos e pedagógicos quanto as realidades em que os professores desenvolvem seu trabalho.
Nesse contexto, as Comunidades de Prática em Rede (CoP-R) representam uma possibilidade de reunir docentes para discutir questões profissionais compartilhadas, conhecer diferentes experiências de ensino e construir alternativas de maneira colaborativa.
Desafios que aproximam professores
Entre os desafios do ensino de Ciências e Biologia estão as dificuldades para trabalhar conceitos abstratos, a necessidade de contextualizar conteúdos científicos, a disponibilidade limitada de recursos pedagógicos e o enfrentamento de controvérsias sociais relacionadas à ciência.
Azevedo, Borba e Selles (2020, p. 43–57) analisam como disputas envolvendo assuntos como evolução biológica, origem da vida, sexualidade e gênero podem interferir nas escolhas pedagógicas e na autonomia dos professores. Essas situações demonstram que o domínio do conhecimento científico precisa estar acompanhado de condições para discutir sua abordagem em diferentes contextos escolares.
Outras dificuldades surgem na organização cotidiana do ensino. Nem sempre o professor dispõe de laboratórios, materiais adequados ou tempo suficiente para elaborar atividades investigativas e práticas.
Essas condições podem limitar algumas propostas pedagógicas, mas também podem mobilizar a busca por alternativas compartilhadas entre os docentes.
A importância de compartilhar conhecimentos e experiências
Uma dificuldade enfrentada por determinado professor pode ser conhecida por outros profissionais que atuam em realidades semelhantes. Entretanto, as soluções desenvolvidas em uma escola nem sempre são conhecidas ou discutidas fora daquele contexto.
Salvador et al. (2017, p. 19–20), ao investigarem uma comunidade virtual de aprendizagem de professores de Biologia, identificaram discussões sobre dificuldades no ensino de Botânica, nas quais os participantes compartilharam experiências e possibilidades de abordagem dos conteúdos.
Esse exemplo demonstra como a interação entre docentes pode abrir oportunidades para examinar um mesmo problema sob diferentes perspectivas.
Imbernón, Shigunov Neto e Silva (2020, p. 169–170) também destacam que as Comunidades de Prática podem favorecer a explicitação e o compartilhamento de conhecimentos construídos pelos professores ao longo de sua experiência profissional.
Assim, uma estratégia de ensino inicialmente desenvolvida por um docente pode tornar-se objeto de discussão, questionamento e aperfeiçoamento coletivo. Não se trata apenas de trocar materiais prontos, mas de compreender as escolhas pedagógicas envolvidas, suas possibilidades e seus limites.
Colaboração e protagonismo docente
As CoP-R também oferecem possibilidades para que os professores participem das decisões sobre sua própria formação.
Nóvoa (2022, p. 10–11, 15) destaca a importância do trabalho conjunto na produção do conhecimento profissional e na organização dos processos formativos. Nessa perspectiva, os docentes não devem ser considerados apenas destinatários de orientações elaboradas por outros profissionais, mas participantes da reflexão e da produção de conhecimentos relacionados ao seu trabalho.
Em uma CoP-R de Ciências e Biologia, isso pode acontecer quando os integrantes identificam problemas que desejam discutir, propõem temas para estudo, compartilham experiências e participam da construção de atividades e recursos pedagógicos.
A participação docente contribui para que o percurso formativo mantenha relação com as necessidades reconhecidas pelo próprio grupo, sem desconsiderar a fundamentação científica e pedagógica necessária à análise das propostas.
Diferentes realidades, novas possibilidades de aprendizagem
Uma característica das CoP-R é a possibilidade de aproximar professores que atuam em instituições e localidades distintas.
Salvador et al. (2017, p. 18–21) identificaram, na comunidade virtual investigada, possibilidades de interlocução entre docentes de diferentes regiões, ampliando o contato com questões e experiências relacionadas ao ensino de Biologia.
Essa diversidade pode contribuir para que os participantes conheçam outras formas de organização do trabalho pedagógico e examinem estratégias que poderiam ser adaptadas às suas realidades.
Por exemplo, professores que dispõem de laboratórios podem compartilhar experiências com atividades experimentais, enquanto docentes que atuam em escolas com poucos recursos podem apresentar estratégias que utilizam materiais acessíveis ou espaços alternativos de aprendizagem.
As diferenças de condições não desaparecem com a colaboração, mas podem se tornar objeto de reflexão e de construção conjunta de possibilidades pedagógicas.
Uma formação construída com os professores
Desenvolver uma CoP-R de Ciências e Biologia significa oferecer oportunidades para que os professores estudem, discutam e construam conhecimentos a partir de questões relevantes para sua atuação profissional.
Isso não significa que a participação em uma comunidade produzirá necessariamente mudanças nas práticas pedagógicas. As contribuições dependem da continuidade das relações, do envolvimento dos participantes, da mediação e das condições disponíveis para desenvolver as atividades.
O principal potencial formativo de uma CoP-R está na possibilidade de transformar experiências individuais em oportunidades de reflexão, aprendizagem e elaboração coletiva, valorizando os professores como participantes ativos de seu desenvolvimento profissional.
Mais do que compartilhar dificuldades ou reunir materiais, uma comunidade pode tornar-se um espaço em que os docentes encontram oportunidades para estudar problemas comuns, examinar alternativas e construir conhecimentos relacionados ao ensino de Ciências e Biologia.
1.6Fundamentos éticos e legais
A criação de uma Comunidade de Prática em Rede (CoP-R) envolve decisões pedagógicas, organizacionais e éticas. Além de estabelecer objetivos formativos e organizar espaços de colaboração, é importante conhecer os marcos legais relacionados à formação docente, à proteção de dados pessoais, aos direitos autorais e à privacidade de crianças e adolescentes.
Esses cuidados são especialmente relevantes quando a comunidade utiliza plataformas digitais, registra encontros, compartilha experiências escolares ou produz materiais pedagógicos de maneira colaborativa.
A seguir, apresentamos alguns fundamentos legais brasileiros que devem ser considerados no planejamento e no desenvolvimento de uma CoP-R.
Figura 6Marcos legais para uma CoP-R
1990
ECA · Lei nº 8.069Imagem, identidade e privacidade de crianças e adolescentes (art. 17).
1996
LDB · Lei nº 9.394Formação continuada dos profissionais do magistério, inclusive com tecnologias a distância (art. 62).
Lei nº 9.610 · Direitos autoraisAutoria e coautoria dos materiais produzidos pela comunidade.
2018
LGPD · Lei nº 13.709Dados pessoais dos participantes: nomes, contatos, listas de presença, gravações.
2025
ECA Digital · Lei nº 15.211Proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais. Em vigor desde 17 de março de 2026.
As leis apresentadas na seção 1.6, em ordem cronológica, e o aspecto de uma CoP-R a que cada uma se relaciona.
Formação continuada e valorização profissional
A Lei nº 9.394/1996, conhecida como Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), estabelece fundamentos para a formação e valorização dos profissionais da educação.
O artigo 62, § 1º, prevê a promoção da formação inicial e continuada dos profissionais do magistério em regime de colaboração entre os entes federativos. O § 2º também contempla a possibilidade de utilização de recursos e tecnologias de educação a distância na formação continuada (Brasil, 1996b).
Dessa forma, a legislação reconhece a importância da formação ao longo da carreira e contempla a utilização de tecnologias digitais nos processos formativos.
As Comunidades de Prática em Rede podem integrar essas possibilidades, oferecendo espaços de estudo, diálogo e colaboração entre professores. Entretanto, sua implementação não substitui, necessariamente, programas institucionais de formação nem garante reconhecimento automático para fins de certificação ou progressão profissional.
Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais — LGPD
A Lei nº 13.709/2018, conhecida como Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), estabelece regras para o tratamento de dados pessoais, inclusive em ambientes digitais.
Em uma CoP-R, essas regras merecem atenção quando são coletados ou armazenados dados como nomes, contatos, informações profissionais, listas de presença, mensagens e gravações de encontros.
A LGPD estabelece princípios como finalidade, necessidade, transparência e segurança, orientando que as informações sejam utilizadas para objetivos legítimos e previamente definidos, com proteção contra acessos não autorizados (Brasil, 2018).
Na prática, recomenda-se:
Informar aos participantes quais dados serão coletados, para quais finalidades e como serão utilizados.
Definir a base legal adequada para cada atividade de tratamento de dados.
Solicitar autorização específica para gravação ou divulgação quando juridicamente necessária, distinguindo essas finalidades da simples participação na comunidade.
Restringir o acesso a documentos e gravações conforme sua finalidade.
Evitar a coleta de informações desnecessárias.
Definir responsáveis pelo armazenamento, segurança e eliminação dos registros.
A realização de uma pesquisa acadêmica dentro de uma CoP-R exige cuidados adicionais relacionados ao protocolo de pesquisa, ao consentimento dos participantes e às orientações éticas aplicáveis.
Direitos autorais e produções colaborativas
A construção coletiva de planos de aula, apresentações, cartilhas, jogos e outros materiais constitui uma possibilidade importante das Comunidades de Prática. Entretanto, a utilização e a divulgação dessas produções devem respeitar os direitos de seus autores.
A Lei nº 9.610/1998, conhecida como Lei de Direitos Autorais, protege obras intelectuais e estabelece regras relacionadas à autoria, à coautoria e à utilização de produções criativas (Brasil, 1998).
Em uma CoP-R, os direitos sobre um material produzido coletivamente não pertencem automaticamente à instituição organizadora. É necessário considerar quem realizou a criação, a existência de contribuições autorais e os acordos ou contratos aplicáveis.
Na prática, recomenda-se:
Identificar os responsáveis pela autoria ou coautoria dos materiais.
Estabelecer previamente como as produções poderão ser compartilhadas, reproduzidas ou adaptadas.
Solicitar as autorizações necessárias antes da divulgação pública de materiais produzidos pelos participantes.
Reconhecer as fontes e os autores de imagens, textos, apresentações e outros recursos utilizados.
Registrar eventuais acordos de licenciamento, especialmente quando os materiais forem disponibilizados gratuitamente na internet.
A Lei nº 9.279/1996, que regula direitos relativos à propriedade industrial, também poderá ser pertinente em situações específicas envolvendo invenções, marcas, desenhos industriais ou outras criações por ela protegidas (Brasil, 1996a). Para a maior parte dos materiais pedagógicos, contudo, a Lei de Direitos Autorais será a referência principal.
Proteção da imagem e da identidade dos estudantes
Durante os encontros de uma CoP-R, é comum que professores compartilhem situações vivenciadas em sala de aula. Esses relatos podem envolver dificuldades de aprendizagem, comportamentos, conflitos escolares ou experiências pedagógicas com estudantes.
Quando tais situações envolverem crianças ou adolescentes, devem ser observados os direitos assegurados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), instituído pela Lei nº 8.069/1990.
O artigo 17 estabelece a proteção da integridade física, psíquica e moral, abrangendo a preservação da imagem, da identidade e de outros aspectos da individualidade da criança e do adolescente (Brasil, 1990).
Assim, relatos de experiências escolares devem ser realizados com cuidado para evitar exposições indevidas.
Na prática, recomenda-se:
Não divulgar nomes, fotografias, vídeos ou outras informações que permitam identificar estudantes sem a devida avaliação jurídica e as autorizações pertinentes.
Evitar identificar escolas, turmas e circunstâncias quando a combinação dessas informações puder revelar a identidade de um estudante.
Utilizar relatos desidentificados, preservando apenas os elementos necessários à reflexão pedagógica.
Não compartilhar laudos, diagnósticos ou informações familiares identificáveis em grupos de formação sem fundamento legal adequado.
Preferir exemplos fictícios ou situações adaptadas quando a identificação não for necessária ao objetivo formativo.
É importante lembrar que um grupo fechado de mensagens ou uma reunião virtual restrita não elimina a necessidade de proteger os dados e a privacidade dos estudantes.
Proteção de crianças e adolescentes nos ambientes digitais
A Lei nº 15.211/2025, denominada Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, conhecida como ECA Digital, entrou em vigor em 17 de março de 2026.
A legislação estabelece medidas de proteção de crianças e adolescentes em produtos e serviços digitais direcionados a esse público ou de acesso provável por ele, contemplando aspectos relacionados à privacidade, à segurança e à proteção de dados pessoais (Brasil, 2025).
Embora uma CoP-R destinada exclusivamente a professores não se confunda com uma plataforma digital direcionada a estudantes, seus organizadores devem considerar essas disposições quando utilizarem serviços abrangidos pela legislação, além das normas do ECA e da LGPD.
O compartilhamento de imagens e informações de estudantes deve observar a finalidade, a necessidade, a base legal e os direitos dos titulares, com especial atenção ao melhor interesse de crianças e adolescentes.
Como orientação preventiva para a comunidade, a regra mais segura é não compartilhar materiais que permitam identificar estudantes, salvo quando a situação tiver sido previamente avaliada e estiver devidamente amparada pelas normas e autorizações aplicáveis.
Normas institucionais e responsabilidades dos participantes
Além da legislação nacional, é importante verificar as normas internas da instituição à qual a CoP-R estiver vinculada.
Uma comunidade organizada oficialmente por uma escola privada, rede pública de ensino, universidade ou secretaria de educação poderá estar sujeita a regulamentos próprios sobre utilização de plataformas, compartilhamento de materiais, gravação de reuniões, proteção de dados e divulgação de imagens.
Antes de iniciar suas atividades, recomenda-se consultar as orientações institucionais pertinentes e definir, de forma transparente, as responsabilidades dos organizadores e participantes.
Quando a comunidade for organizada de maneira independente, esses cuidados também deverão ser observados.
Uma CoP-R deve constituir um espaço de confiança, colaboração e respeito, no qual a liberdade para compartilhar experiências profissionais esteja acompanhada do compromisso com a privacidade, a autoria e os direitos das pessoas envolvidas.
Nos próximos eixos, apresentaremos ferramentas que poderão auxiliar na organização desses cuidados desde o planejamento inicial da comunidade.
Cuidados antes de compartilhar materiais e registros
A organização de uma CoP-R também exige atenção à privacidade dos participantes, aos direitos autorais e às normas das instituições envolvidas.
Antes de disponibilizar documentos, imagens, gravações ou produções pedagógicas, é importante verificar sua origem, finalidade e condições de compartilhamento.
Alguns cuidados são especialmente relevantes:
Proteger os dados pessoais dos participantes e evitar a divulgação de informações que permitam identificá-los sem uma justificativa e uma base legal adequada.
Reconhecer a autoria dos materiais e verificar as permissões necessárias para sua reprodução, adaptação ou publicação.
Adotar cuidados específicos quando os registros ou as produções envolverem crianças e adolescentes.
Consultar as orientações institucionais e estabelecer previamente como os materiais da comunidade poderão ser utilizados.
Esses cuidados ajudam a construir um ambiente de confiança e respeito à produção dos participantes.
Para apoiar a organização da sua comunidade: consulte o REC-04 — Checklist de cuidados éticos e legais, acompanhado de links para a legislação e orientações oficiais.
Toda comunidade precisa de algumas condições iniciais para começar: um propósito compartilhável, participantes interessados, canais de comunicação e tempo para se encontrar. Este eixo apresenta decisões e instrumentos que podem ajudar na organização, sem retirar dos integrantes a possibilidade de negociar o próprio percurso.
O primeiro passo para desenvolver uma Comunidade de Prática em Rede (CoP-R) é identificar o contexto em que ela poderá se constituir e as necessidades que motivam sua criação.
Uma CoP-R pode surgir da iniciativa de um professor, coordenador pedagógico, formador ou grupo de profissionais interessados em compartilhar experiências e discutir desafios do ensino. A proposta pode reunir docentes de uma mesma escola ou de diferentes instituições e localidades.
Antes de iniciar a mobilização, procure identificar:
Quem poderá participar da comunidade?
Quais dificuldades ou interesses profissionais motivam sua criação?
Quais recursos e condições estão disponíveis?
A iniciativa será independente ou vinculada a uma instituição?
Souza, Araujo e Veit (2022, p. 13–15) destacam que o cultivo de Comunidades de Prática envolve considerar os profissionais participantes, suas expectativas e as condições de organização. Por isso, o planejamento inicial deve oferecer possibilidades de participação, sem determinar antecipadamente todos os caminhos da comunidade.
Comece com uma proposta, não com todas as decisões tomadas. O idealizador pode estabelecer um ponto de partida, mas os objetivos e as atividades deverão ser discutidos e aperfeiçoados com os futuros integrantes.
2.2Divulgação, inscrição e interesses
Uma Comunidade de Prática em Rede começa a ganhar forma quando pessoas reconhecem interesses profissionais compartilhados e encontram oportunidades para aprender e colaborar.
Depois de identificar o contexto em que a comunidade poderá ser desenvolvida, é necessário pensar em quem poderá integrá-la, como apresentar a proposta e de que maneira conhecer as expectativas dos futuros participantes.
Souza, Araujo e Veit (2022) destacam que o cultivo de Comunidades de Prática exige atenção às relações entre seus integrantes e à participação dos professores nas decisões sobre os caminhos formativos. Nesse sentido, a mobilização não deve ser entendida apenas como um processo de recrutamento, mas como uma oportunidade inicial de aproximação e reconhecimento de interesses comuns.
Quem poderá participar?
O público de uma CoP-R deve estar relacionado ao domínio de conhecimento e à prática profissional que se pretende compartilhar.
Uma comunidade voltada ao ensino de Ciências e Biologia poderá reunir professores dos anos finais do Ensino Fundamental, docentes do Ensino Médio e outros profissionais envolvidos na formação e no ensino dessas áreas.
A composição pode incluir professores com diferentes tempos de experiência, formações e condições de atuação.
Essa diversidade pode ampliar as oportunidades de aprendizagem, pois permite que os participantes conheçam realidades escolares distintas e discutam diferentes maneiras de enfrentar desafios semelhantes.
Entretanto, não existe um número universal de participantes que assegure o funcionamento de uma CoP-R. A definição do tamanho do grupo deve considerar as condições de mediação, as atividades propostas, os recursos disponíveis e as possibilidades de interação.
Também é importante distinguir o público que se deseja alcançar dos critérios efetivamente necessários para participar. Restrições de ingresso devem ter justificativa compatível com os objetivos e com a natureza da iniciativa.
Como apresentar e divulgar a proposta?
A divulgação é uma oportunidade para despertar o interesse dos professores, mas também para comunicar com clareza o que caracteriza a iniciativa.
O convite deve apresentar a finalidade da comunidade, o público a que se destina e as possibilidades de participação e colaboração.
É importante esclarecer que uma CoP-R não se limita à realização de palestras ou à disponibilização de materiais prontos. Sua proposta envolve a participação dos integrantes nas discussões e na construção de conhecimentos relacionados à prática docente.
A mobilização poderá ocorrer por diferentes canais, como redes de contatos profissionais, grupos de professores, instituições de ensino, redes sociais e comunicação institucional.
A escolha desses canais dependerá do público que se pretende alcançar.
Em uma iniciativa vinculada a uma escola, por exemplo, a apresentação poderá ocorrer em uma reunião pedagógica. Já em uma comunidade com professores de diferentes localidades, os meios digitais poderão contribuir para ampliar a divulgação.
É importante que o convite seja acessível e apresente informações suficientes para que os interessados compreendam a proposta antes de manifestar sua intenção de participar.
Conhecendo expectativas e necessidades
Depois de divulgar a proposta, recomenda-se realizar um levantamento inicial para conhecer os professores interessados.
Esse levantamento pode incluir informações sobre atuação profissional, áreas de interesse, desafios vivenciados no ensino, expectativas formativas e condições de participação.
Segundo Wenger, McDermott e Snyder (2002 apud Rodrigues; Silva; Miskulin, 2017), o domínio compartilhado constitui um elemento fundamental das Comunidades de Prática. Conhecer os interesses dos possíveis integrantes pode, portanto, contribuir para identificar questões capazes de aproximá-los.
No ensino de Ciências e Biologia, alguns professores podem demonstrar interesse em metodologias investigativas, enquanto outros podem desejar discutir problemas de aprendizagem, dificuldades com conteúdos específicos ou possibilidades de utilização de recursos digitais.
Essas expectativas não precisam ser idênticas. O levantamento inicial poderá ajudar a reconhecer aproximações entre elas e identificar temas que mereçam ser discutidos coletivamente.
O formulário não deve determinar sozinho o percurso da comunidade. Seus resultados funcionam como ponto de partida para o diálogo e para as decisões que serão construídas com os participantes.
Da inscrição à participação
Manifestar interesse em uma comunidade não significa necessariamente participar de suas atividades ou permanecer envolvido ao longo do tempo.
Os professores podem demonstrar interesse na proposta e, posteriormente, enfrentar dificuldades relacionadas à carga de trabalho, aos horários ou a outras responsabilidades profissionais e pessoais.
Machado, Wives e Grandi (2019, p. 2002) identificaram fatores relacionados à descontinuidade da participação em comunidades virtuais, incluindo a escassez de interações, dificuldades com ferramentas digitais e problemas na mediação.
Por isso, é importante que o processo de mobilização inclua informações sobre a disponibilidade dos interessados e suas possibilidades de participação.
Após o levantamento inicial, recomenda-se apresentar uma proposta preliminar de organização, esclarecer as condições de funcionamento e oferecer oportunidades para que os participantes contribuam com as decisões.
O primeiro encontro pode desempenhar um papel importante nesse processo, permitindo que os docentes se conheçam, compartilhem expectativas e discutam os acordos necessários ao desenvolvimento das atividades.
Figura 7Da divulgação ao primeiro encontro
1Divulgar a propostaFinalidade, público e formas de participação. REC-06
2Conhecer os interessadosPerfil, desafios, expectativas e disponibilidade. REC-07
3Apresentar uma proposta preliminarCondições de funcionamento, aberta a contribuições
4Realizar o primeiro encontroApresentações, expectativas e acordos
A mobilização como processo de aproximação, e não só de recrutamento (seção 2.2). O formulário serve como ponto de partida para o diálogo.
Acolhimento e construção das primeiras relações
A mobilização não termina quando os participantes ingressam em um grupo de mensagens ou recebem o convite para o primeiro encontro.
A constituição da comunidade depende das relações desenvolvidas entre seus integrantes.
Imbernón, Shigunov Neto e Silva (2020, p. 168–169) destacam que as Comunidades de Prática não se caracterizam apenas pela reunião de pessoas com afinidades profissionais, mas pelo envolvimento e pelo compartilhamento de conhecimentos relacionados à prática.
Dessa forma, é importante criar oportunidades para que os docentes se apresentem, compartilhem experiências e reconheçam interesses comuns.
Acolher também significa respeitar diferentes formas de participação, considerando que alguns professores podem sentir maior facilidade para falar durante os encontros, enquanto outros inicialmente preferem acompanhar as discussões ou contribuir por escrito.
O desenvolvimento de vínculos e da confiança exige tempo e não pode ser garantido apenas pela realização de dinâmicas de apresentação.
Mobilizar uma CoP-R significa mais do que reunir interessados. É iniciar um processo de aproximação entre professores que poderão reconhecer interesses comuns, construir relações e participar das decisões sobre seu próprio percurso formativo.
Na próxima seção, discutiremos como transformar os interesses identificados em um domínio compartilhado e em objetivos que façam sentido para os integrantes da comunidade.
2.3Domínio e objetivos da comunidade
Depois de conhecer o perfil, os interesses e as expectativas dos professores, é importante transformar essas informações em referências para a organização da comunidade.
Esse processo envolve identificar o domínio compartilhado, compreender as questões que aproximam os participantes e construir objetivos que orientem suas atividades.
Segundo Wenger, McDermott e Snyder (2002 apud Rodrigues; Silva; Miskulin, 2017), o domínio constitui um dos elementos fundamentais das Comunidades de Prática, pois corresponde ao campo de conhecimento e interesse que confere identidade ao grupo.
Entretanto, definir um domínio não significa apenas escolher um assunto geral ou estabelecer uma programação de conteúdos. É necessário reconhecer questões que sejam significativas para os integrantes e que possam mobilizar seu envolvimento ao longo do tempo.
Como identificar um domínio compartilhado?
O domínio pode começar a ser reconhecido a partir dos interesses e desafios apresentados pelos professores durante a mobilização inicial.
Uma CoP-R voltada ao ensino de Ciências e Biologia, por exemplo, poderá reunir docentes interessados em discutir dificuldades de aprendizagem, metodologias investigativas, temas controversos ou produção de materiais pedagógicos.
Embora esses interesses estejam relacionados à mesma área profissional, nem todos precisam se transformar em temas de estudo da comunidade.
O grupo poderá identificar questões que aproximam seus integrantes e negociar quais delas merecem maior atenção.
Souza, Araujo e Veit (2022, p. 13–15), ao discutirem diretrizes para o cultivo de Comunidades de Prática na formação de professores de Ciências da Natureza, destacam a relevância dos desejos, das expectativas e da participação dos docentes nas decisões sobre os temas e os caminhos da comunidade.
Uma possibilidade é apresentar aos participantes uma síntese dos interesses identificados no formulário inicial e promover uma discussão coletiva sobre suas aproximações e diferenças.
Nesse momento, o papel do organizador é favorecer o diálogo, sem presumir que suas prioridades sejam necessariamente as mesmas do grupo.
O domínio deve oferecer uma referência comum para a comunidade, sem eliminar a diversidade de experiências e interesses de seus integrantes.
Transformando interesses em objetivos compartilhados
Após reconhecer o domínio, os participantes podem discutir o que desejam desenvolver por meio da comunidade.
Os objetivos compartilhados expressam intenções que ajudam a orientar as atividades e as decisões do grupo.
Em uma CoP-R de Ciências e Biologia, podem envolver o estudo de dificuldades recorrentes, o compartilhamento de experiências, a análise de estratégias pedagógicas e a elaboração colaborativa de recursos para o ensino.
Por exemplo, se os professores identificarem dificuldades relacionadas ao ensino de conceitos abstratos, poderão estabelecer como objetivo discutir abordagens didáticas e construir propostas que favoreçam a compreensão desses conteúdos.
Se o interesse predominante estiver relacionado à abordagem de temas controversos, poderão decidir estudar fundamentos científicos e pedagógicos, examinar situações escolares e discutir estratégias para sua contextualização.
Esses objetivos devem ser suficientemente claros para orientar as atividades, mas flexíveis para acolher novas necessidades que surjam durante o desenvolvimento da comunidade.
A perspectiva de cultivo discutida por Souza, Araujo e Veit (2022) contribui para compreender que as relações comunitárias e os percursos formativos não podem ser inteiramente determinados antes da participação dos integrantes.
Negociação e participação nas decisões
Uma das características que podem diferenciar uma CoP-R de uma formação convencional é a possibilidade de os professores participarem das decisões sobre o percurso formativo.
Isso não significa que o organizador precise se afastar de seu papel ou deixar de apresentar propostas.
Sua atuação pode envolver a preparação de materiais, a apresentação de alternativas, a sistematização das discussões e a mediação das decisões coletivas.
Entretanto, é importante que os participantes tenham oportunidades reais de apresentar sugestões, questionar encaminhamentos e contribuir para a definição das prioridades.
Wenger (1998), ao discutir as dimensões que constituem a prática de uma comunidade, destaca o empreendimento conjunto como algo desenvolvido e negociado nas relações entre seus participantes.
Essa perspectiva contribui para compreender que os compromissos compartilhados não dependem apenas de uma definição inicial, mas são construídos e reelaborados na própria participação.
Assim, as decisões podem ocorrer durante os encontros, por meio de discussões coletivas, levantamento de propostas ou outras estratégias que permitam a manifestação dos integrantes.
O mais importante é que a participação não se limite à escolha entre alternativas inteiramente definidas pelo organizador.
E quando os professores possuem interesses diferentes?
É natural que os integrantes de uma CoP-R apresentem necessidades e expectativas distintas.
Professores que atuam no Ensino Fundamental podem identificar dificuldades diferentes daquelas enfrentadas por docentes do Ensino Médio. Da mesma forma, as condições de infraestrutura e os contextos escolares podem influenciar os interesses profissionais.
Essas diferenças não precisam ser consideradas obstáculos à constituição da comunidade.
O grupo poderá reconhecer temas mais abrangentes, estabelecer prioridades para determinado período ou organizar atividades que contemplem diferentes questões.
Por exemplo, uma comunidade interessada em inovação pedagógica poderá discutir estratégias investigativas, recursos digitais e elaboração de atividades, mesmo que nem todos os participantes utilizem as mesmas metodologias em suas escolas.
Não é necessário alcançar concordância absoluta sobre todos os assuntos. É importante, porém, construir compromissos que permitam aos integrantes reconhecer sentido em sua participação.
Os objetivos podem mudar ao longo do tempo?
O domínio oferece uma referência para a identidade da comunidade, mas os objetivos e as prioridades de trabalho podem ser revistos conforme surgem novas necessidades e experiências.
Uma comunidade que inicia suas atividades discutindo dificuldades de ensino poderá, posteriormente, identificar interesse em elaborar materiais colaborativos ou aprofundar determinados conhecimentos científicos e pedagógicos.
Essa possibilidade de transformação é coerente com a compreensão de Comunidades de Prática como espaços constituídos por relações e aprendizagens desenvolvidas ao longo da participação (Wenger, 1998; Souza; Araujo; Veit, 2022).
Por essa razão, recomenda-se que os objetivos definidos inicialmente sejam registrados e retomados em momentos posteriores, permitindo avaliar se continuam relevantes para os participantes.
Definir o domínio e os objetivos compartilhados não significa estabelecer um roteiro definitivo, mas construir referências comuns que possam orientar e acompanhar o desenvolvimento da CoP-R.
Na próxima seção, discutiremos os papéis e as responsabilidades dos participantes, considerando como organizar a mediação e compartilhar tarefas sem comprometer o protagonismo docente.
Utilize o REC-08 para documentar o domínio e os objetivos definidos com os participantes.
2.4Responsabilidades e combinados
Uma CoP-R pode ser iniciada por uma pessoa ou por um grupo responsável pela mobilização dos professores e pela organização dos primeiros encontros. Entretanto, essa iniciativa não deve significar concentração permanente das decisões.
As regras de funcionamento, os compromissos e a distribuição de responsabilidades devem ser discutidos e definidos coletivamente pelos participantes.
Entre as atividades que poderão ser distribuídas estão a mediação de encontros, a organização de materiais, o registro das decisões, o acompanhamento das tarefas e a administração dos ambientes digitais.
Essas responsabilidades podem ser compartilhadas ou alternadas conforme os interesses e as condições dos integrantes.
A mediação, por sua vez, deve favorecer a participação, organizar as discussões e estimular a reflexão sobre as experiências apresentadas.
Moser (2010, p. 239–240) destaca a importância do respeito, da confiança e do compromisso dos membros com o domínio de aprendizagem. Essas condições são relevantes para que os participantes se sintam seguros para compartilhar dúvidas e examinar suas práticas profissionais.
Construindo os acordos da comunidade
Recomenda-se reservar um momento do primeiro encontro para discutir coletivamente questões como respeito, escuta, confidencialidade, frequência, comunicação e compartilhamento de materiais.
O idealizador pode apresentar propostas iniciais, mas os professores devem ter oportunidade de acrescentar, questionar e modificar os encaminhamentos.
Os acordos também podem ser revistos durante o percurso.
É importante lembrar que exigências legais, como a proteção de dados pessoais e o respeito aos direitos autorais, não dependem de aprovação coletiva e devem ser observadas por todos os integrantes.
2.5Plataformas e ferramentas digitais
As Comunidades de Prática podem ser desenvolvidas em ambientes presenciais, virtuais ou híbridos. A escolha depende do contexto, da localização dos participantes, das condições de acesso e das possibilidades de interação.
Neste guia, nosso foco são as Comunidades de Prática em Rede (CoP-R), que utilizam tecnologias digitais para aproximar professores, compartilhar experiências e desenvolver atividades colaborativas, inclusive entre profissionais de diferentes instituições e localidades.
Para organizar uma CoP-R, não é necessário utilizar muitas plataformas. O ideal é escolher ferramentas acessíveis e adequadas às necessidades dos participantes, considerando suas vantagens e limitações.
Plataformas para encontros e interações
As plataformas abaixo oferecem diferentes possibilidades para realizar encontros, organizar discussões e compartilhar conhecimentos.
Plataforma
Vantagens
Limitações
Google Meet
Acesso por link, compartilhamento de tela, chat e reuniões com áudio e vídeo.
Os limites de duração, gravação e funcionalidades variam conforme a conta e o plano. Conferir as condições oficiais vigentes.
Zoom
Recursos de videoconferência, interação e organização de reuniões; salas simultâneas em configurações compatíveis.
Tempo das reuniões e acesso a salas simultâneas e outros recursos variam conforme o plano. Conferir as condições oficiais vigentes.
WhatsApp — videochamadas
Familiaridade com a ferramenta, facilidade para reunir grupos menores e manter a comunicação entre encontros.
A quantidade máxima de participantes e os recursos disponíveis podem mudar; dispõe de menos ferramentas de mediação pedagógica do que plataformas próprias para reuniões.
YouTube — transmissões ao vivo
Permite transmitir apresentações, debates e encontros para públicos numerosos, com interação pelo chat.
A participação costuma ser concentrada nos apresentadores, com menor possibilidade de diálogo direto entre todos os participantes.
Moodle e fóruns virtuais
Permitem organizar discussões por temas, disponibilizar materiais e manter registros das contribuições ao longo do tempo.
Exigem configuração e administração do ambiente; a participação nos fóruns depende do acompanhamento e do interesse dos integrantes.
Os recursos, limites e condições de utilização das plataformas podem mudar. Recomenda-se verificar as informações oficiais antes de escolher a ferramenta.
Como escolher?
Antes de decidir, considere quatro questões:
Quantos professores participarão dos encontros?
Todos possuem acesso e familiaridade com a plataforma?
A ferramenta permite as interações e atividades que o grupo deseja desenvolver?
Será necessário gravar encontros, compartilhar arquivos ou manter discussões entre as reuniões?
Para comunidades que priorizam discussões coletivas e planejamento colaborativo, plataformas de videoconferência, como Google Meet e Zoom, podem ser mais adequadas.
O WhatsApp pode funcionar tanto como espaço de comunicação quanto como alternativa para videochamadas de grupos menores.
Já as transmissões pelo YouTube podem ser úteis para palestras e socializações abertas, mas não devem substituir todas as oportunidades de participação e diálogo entre os integrantes.
Ambientes como o Moodle e fóruns virtuais podem complementar os encontros, permitindo discussões assíncronas e organização dos conhecimentos compartilhados.
Uma CoP-R precisa utilizar apenas uma plataforma?
Não. É possível combinar diferentes ferramentas conforme as necessidades da comunidade.
Por exemplo, o grupo pode utilizar uma plataforma para os encontros virtuais, um aplicativo de mensagens para comunicados e um ambiente compartilhado para organizar materiais.
Entretanto, a escolha dessas ferramentas e de suas formas de utilização também deve ser discutida com os participantes, considerando a acessibilidade e as condições reais de participação.
Mais importante do que a quantidade de recursos digitais é garantir que eles facilitem a comunicação, a colaboração e a continuidade das atividades.
2.6Organização dos encontros e calendário
A definição dos dias, horários e da frequência dos encontros deve considerar a rotina de trabalho e a disponibilidade dos professores.
Uma estratégia é incluir no formulário inicial de interesse uma enquete com opções de dias, horários e periodicidade. Os resultados poderão ser apresentados aos participantes para discussão e definição coletiva.
Bastos e Mourão (2026, p. 10) identificam a falta de tempo e a manutenção do envolvimento entre os desafios encontrados em comunidades de profissionais da educação.
Por isso, recomendamos:
Duração: encontros de até 1h30.
Frequência: semanal ou quinzenal, conforme decisão dos participantes.
Calendário: preferencialmente, concluir os encontros do ano até outubro, evitando novembro e dezembro.
Períodos de atenção: evitar datas próximas aos fechamentos de trimestres ou semestres.
Atividades colaborativas: reservar tempo suficiente para planejamento, discussão, revisão e aprimoramento das produções.
Figura 8Encontros e calendário
Duraçãoaté 1h30
Frequênciasemanal ou quinzenaldecidida pelo grupo
Atençãofechamentos de trimestre e semestreevitar datas próximas
janfevmarabrmaijunjulagosetoutnovdez
Concluir os encontros do ano até outubroEvitar novembro e dezembro
Recomendações da seção 2.6, elaboradas a partir das dificuldades observadas na experiência piloto. Não são regras universais.
Essas orientações são recomendações elaboradas para este guia, considerando as dificuldades observadas na experiência piloto. Não constituem regras universais.
2.7Plano inicial da CoP-R
Depois de reunir as informações e decisões das etapas anteriores, recomenda-se organizá-las em um plano inicial de funcionamento.
Esse documento poderá conter:
Identificação da comunidade e público participante.
Domínio e objetivos compartilhados.
Modalidade, calendário e frequência dos encontros.
Ferramentas de comunicação e compartilhamento.
Responsabilidades e acordos definidos coletivamente.
Temas e atividades iniciais.
Momentos previstos para avaliação e revisão do planejamento.
O idealizador pode elaborar uma proposta preliminar, mas as decisões relacionadas ao funcionamento da comunidade devem ser discutidas com os integrantes.
Figura 9Do planejamento ao plano inicial
2.1 Conheça seu contextoQuem participa, que necessidades motivam a comunidade, que condições existem. REC-05
Cada seção do Eixo 2 contribui com uma parte do plano inicial. O plano é uma referência, revista conforme as decisões do grupo.
Souza, Araujo e Veit (2022, p. 14–15) ressaltam que as relações comunitárias não podem ser completamente previstas. Por isso, o plano deve permanecer aberto a alterações conforme as necessidades e as decisões do grupo.
O planejamento é uma referência para orientar o desenvolvimento da CoP-R, não um roteiro rígido que impeça os professores de transformar seu percurso formativo.
Uma CoP-R não se constitui apenas com convites e calendário. É nas interações que os professores podem reconhecer desafios comuns, explicitar saberes, examinar propostas e elaborar conhecimentos em conjunto. Este eixo reúne orientações para acolhimento, mediação, participação, produção colaborativa e avaliação.
O início de uma Comunidade de Prática em Rede (CoP-R) representa uma oportunidade para que os professores se conheçam, compartilhem suas experiências e comecem a construir relações de confiança.
Embora os participantes possam possuir interesses profissionais semelhantes, isso não significa que já se reconheçam como integrantes de uma comunidade. Os vínculos se desenvolvem gradualmente, por meio das interações e das atividades compartilhadas.
Moser (2010, p. 239–240) destaca a importância do respeito, da confiança e do compromisso dos integrantes com o domínio de aprendizagem. Da mesma forma, Wenger (1998 apud Rodrigues; Silva; Miskulin, 2017, p. 22) apresenta o engajamento mútuo como uma das dimensões constitutivas da prática comunitária.
Essas contribuições reforçam a importância de organizar momentos que favoreçam a aproximação entre os professores e sua participação nas discussões.
Comece conhecendo os participantes
Recomenda-se reservar parte do primeiro encontro para uma apresentação pessoal e profissional dos integrantes.
Esse momento pode ser conduzido por perguntas simples, como:
Quem é você e em qual contexto educacional atua?
Há quanto tempo trabalha com o ensino de Ciências ou Biologia?
Qual desafio da docência gostaria de compartilhar?
O que espera encontrar ou construir junto aos demais professores?
As apresentações podem ocorrer oralmente ou pelo chat, respeitando as diferentes formas de participação.
O objetivo não é apenas conhecer nomes e trajetórias, mas começar a identificar experiências e questões que aproximam os participantes.
Crie oportunidades para a escuta
Compartilhar dificuldades profissionais pode envolver inseguranças, especialmente quando os relatos dizem respeito a experiências que não produziram os resultados esperados.
Por isso, é importante cultivar um ambiente em que os professores possam apresentar dúvidas, expressar opiniões e analisar situações de ensino sem receio de constrangimentos.
A confiança não surge automaticamente no primeiro encontro. Ela pode ser favorecida pela escuta, pelo respeito às diferentes experiências e pelo cumprimento dos acordos de convivência estabelecidos coletivamente.
Também é importante reconhecer que divergências fazem parte do processo de aprendizagem. O objetivo não deve ser evitar questionamentos, mas permitir que ideias sejam discutidas com respeito e fundamentação.
Valorize diferentes experiências
Uma CoP-R pode reunir professores em diferentes momentos da carreira, com conhecimentos, interesses e condições de atuação diversos.
Essa diversidade oferece possibilidades de aprendizagem, desde que os participantes tenham oportunidades de compartilhar suas perspectivas.
Um professor iniciante pode apresentar conhecimentos e estratégias relacionados à sua formação recente, enquanto um professor experiente pode contribuir com situações vivenciadas ao longo de sua trajetória profissional.
As contribuições não devem ser hierarquizadas exclusivamente pelo tempo de docência ou pela titulação acadêmica.
Na perspectiva da aprendizagem situada, Lave e Wenger (1991) compreendem a aprendizagem como vinculada à participação nas práticas sociais. Dessa forma, as oportunidades de envolvimento nas atividades da comunidade são importantes para a construção de conhecimentos compartilhados.
Mantenha os vínculos ao longo do percurso
O acolhimento não deve ficar restrito ao encontro de abertura.
Retomar discussões anteriores, reconhecer contribuições, convidar os integrantes a apresentar suas experiências e criar oportunidades de interação entre as reuniões são maneiras de favorecer a continuidade das relações.
Em comunidades virtuais, ferramentas de comunicação podem auxiliar nesse processo, permitindo compartilhar materiais, encaminhamentos e questões para discussão.
Entretanto, é importante evitar que os canais digitais se transformem em fontes de cobranças excessivas ou mensagens que sobrecarreguem os professores.
O acolhimento de uma CoP-R não se resume a uma dinâmica inicial de apresentação. Ele envolve cultivar relações de respeito, confiança e participação ao longo de toda a trajetória da comunidade.
Na próxima seção, apresentaremos orientações para organizar e mediar os encontros, favorecendo discussões em que os professores possam compartilhar, questionar e desenvolver ideias coletivamente.
O REC-11 oferece uma proposta de organização do encontro inicial, que poderá ser adaptada ao tamanho do grupo e ao formato das reuniões.
3.2Mediação e engajamento dos professores
Em uma Comunidade de Prática em Rede (CoP-R), os encontros constituem oportunidades para que os professores compartilhem experiências, discutam problemas relacionados à docência e construam conhecimentos coletivamente.
Para favorecer essas interações, é importante que a mediação vá além da apresentação de conteúdos e da organização das falas. O mediador pode contribuir para que as experiências compartilhadas se tornem objeto de reflexão, questionamento e elaboração conjunta.
Wenger (1998 apud Rodrigues; Silva; Miskulin, 2017, p. 22) destaca o engajamento mútuo e o empreendimento conjunto como dimensões da prática comunitária. Essa perspectiva reforça a importância de favorecer a participação dos integrantes em torno de questões e compromissos compartilhados.
Como estruturar um encontro?
Recomenda-se que cada encontro tenha um objetivo claro, relacionado aos interesses definidos pela comunidade, mas mantenha abertura para questões que surjam durante as discussões.
Uma organização simples pode contemplar três momentos:
1. Acolhimento e retomada: apresentar a pauta, recuperar questões do encontro anterior e convidar os participantes a compartilhar observações ou experiências relacionadas ao tema.
2. Discussão e atividade colaborativa: desenvolver a questão central do encontro por meio de relatos, análise de situações, estudos, debates ou elaboração conjunta de propostas.
3. Síntese e encaminhamentos: retomar as principais ideias discutidas, registrar decisões e definir coletivamente os próximos passos.
A distribuição do tempo poderá variar conforme as atividades. Para os encontros de até 1h30 recomendados neste guia, é importante priorizar as interações e evitar apresentações expositivas excessivamente longas.
Figura 10Estrutura de um encontro
1Acolhimento e retomadaPauta, questões do encontro anterior, primeiras experiências
2Discussão e atividade colaborativaRelatos, análise de situações, estudos, debates, propostas
3Síntese e encaminhamentosIdeias principais, decisões e próximos passos
Os três momentos sugeridos na seção 3.2 para encontros de até 1h30. A distribuição do tempo varia conforme as atividades; o centro do encontro são as interações.
Da troca de experiências à reflexão coletiva
Compartilhar experiências é importante, mas a colaboração pode ser aprofundada quando os participantes analisam conjuntamente as situações apresentadas.
Imagine que um professor relate dificuldades para desenvolver atividades investigativas em uma escola que não possui laboratório.
Em vez de encerrar a discussão após o relato, o mediador pode convidar o grupo a examinar o problema:
Quais condições dificultam a realização dessas atividades?
Alguém já enfrentou uma situação semelhante?
Quais alternativas poderiam ser consideradas?
Que conhecimentos científicos e pedagógicos podem fundamentar essas propostas?
Quais limitações precisam ser reconhecidas antes de sua utilização?
Essas perguntas podem ampliar a discussão, permitindo que os participantes comparem experiências, analisem argumentos e construam possibilidades relacionadas à prática docente.
Isso não significa que todas as discussões devam resultar em uma solução ou em um material didático. A identificação de limites, divergências e questões que precisam ser aprofundadas também pode contribuir para a aprendizagem coletiva.
Como favorecer discussões mais produtivas?
Engle e Conant (2002) apresentam quatro princípios relacionados às condições que podem favorecer o Engajamento Disciplinar Produtivo: problematização, autoridade, responsabilização e disponibilização de recursos.
Embora tenham sido propostos no contexto da aprendizagem disciplinar, esses princípios oferecem referências para pensar a mediação de discussões entre professores, desde que sejam considerados os objetivos e as particularidades da formação docente.
Problematização: propor questões relevantes, que possam ser examinadas sob diferentes perspectivas e mobilizem conhecimentos dos participantes.
Autoridade: reconhecer a capacidade dos integrantes de apresentar ideias, questionar encaminhamentos, tomar decisões e contribuir para a construção de explicações.
Responsabilização: incentivar que as propostas sejam discutidas com argumentos e justificativas relacionados aos conhecimentos e às práticas profissionais, considerando também as contribuições dos demais participantes.
Recursos: disponibilizar condições que auxiliem as discussões, como referências científicas e pedagógicas, materiais didáticos, documentos curriculares e ferramentas digitais.
Na prática, esses princípios podem orientar a escolha das atividades e a elaboração de perguntas pelo mediador.
Entretanto, sua utilização não assegura, por si só, a ocorrência de Engajamento Disciplinar Produtivo. Conforme discutem Souza (2015) e Sasseron e Souza (2019), a identificação de diferentes níveis de engajamento exige examinar as manifestações e o desenvolvimento das interações.
O mediador precisa apresentar todas as respostas?
Não. A mediação de uma CoP-R não pressupõe que uma pessoa concentre os conhecimentos ou determine as conclusões do grupo.
O mediador pode apresentar referências, esclarecer conceitos e organizar as discussões, mas também deve favorecer a participação dos professores na formulação de questões, na análise dos argumentos e na construção dos encaminhamentos.
Isso inclui acolher diferentes opiniões sem deixar de considerar a necessidade de fundamentação científica e pedagógica.
Quando surgirem afirmações controversas ou dúvidas conceituais, por exemplo, o grupo poderá consultar fontes, examinar evidências e discutir suas implicações para o ensino.
A mediação também pode ser compartilhada ou alternada entre integrantes, conforme os acordos da comunidade.
Como encerrar o encontro?
Ao final de cada reunião, recomenda-se reservar alguns minutos para recuperar as principais questões discutidas e registrar os encaminhamentos.
O grupo poderá identificar conhecimentos compartilhados, dúvidas que permanecem, propostas em elaboração e temas que merecem continuidade.
Esses registros podem ser organizados em documentos colaborativos, permitindo que os integrantes acompanhem o desenvolvimento das discussões e retomem ideias nos encontros seguintes.
Uma mediação que favoreça a aprendizagem coletiva não se limita a distribuir a palavra. Ela procura criar condições para que os participantes questionem, fundamentem, confrontem e reelaborem conhecimentos relacionados à prática docente.
Na próxima seção, discutiremos como transformar desafios identificados pelos professores em temas de estudo e atividades colaborativas para a comunidade.
Todos têm conhecimentos a compartilhar
Em uma Comunidade de Prática, a aprendizagem não se organiza necessariamente em torno de uma relação hierárquica entre quem ensina e quem aprende. Os participantes são reconhecidos como profissionais que possuem conhecimentos, experiências e perspectivas capazes de contribuir para a construção coletiva.
Nóvoa (2022, p. 10–11) enfatiza a natureza coletiva do conhecimento profissional docente, constituído por meio do diálogo, da reflexão compartilhada e dos encontros entre diferentes gerações de professores.
Nessa perspectiva, um professor em início de carreira pode contribuir com conhecimentos e experiências tão relevantes para determinada discussão quanto aqueles apresentados por profissionais com muitos anos de atuação. Da mesma forma, diferentes formações acadêmicas podem ampliar as possibilidades de análise das questões compartilhadas.
Uma CoP-R não deve estabelecer hierarquias de participação baseadas exclusivamente no tempo de experiência ou na titulação dos integrantes. O protagonismo docente envolve reconhecer diferentes conhecimentos, favorecer a circulação da palavra e permitir que todos contribuam para as decisões e aprendizagens da comunidade.
Isso não significa desconsiderar diferenças de experiência ou de conhecimento especializado, mas compreender que essas diferenças podem enriquecer as discussões, sem determinar previamente quem tem autoridade para contribuir.
3.3Dos desafios individuais às questões coletivas
Quais dificuldades fazem parte do cotidiano dos professores da sua comunidade? Quais conhecimentos eles gostariam de aprofundar? Que estratégias ou experiências poderiam ser compartilhadas para enfrentar esses desafios?
Uma das possibilidades das Comunidades de Prática em Rede (CoP-R) é organizar a formação continuada a partir de questões identificadas pelos próprios docentes.
Souza, Araujo e Veit (2022, p. 13–14) destacam a importância de considerar as necessidades, os interesses e os temas reconhecidos como relevantes pelos participantes na organização de uma comunidade. Essa perspectiva aproxima a formação dos problemas que os professores encontram em seu trabalho.
Identifique os desafios dos professores
Os desafios podem envolver aspectos gerais da profissão docente ou questões específicas do ensino de Ciências e Biologia.
Desafios gerais da docência: falta de tempo para planejamento, turmas numerosas, desinteresse dos estudantes, dificuldades de aprendizagem, ausência de recursos e sobrecarga de trabalho.
Desafios específicos de Ciências e Biologia: No ensino de Ciências e Biologia, as necessidades formativas podem envolver dificuldades conceituais, escolhas metodológicas e questões relacionadas aos contextos escolares. Salvador et al. (2017, p. 19–20), ao investigarem uma comunidade virtual de professores de Biologia, identificaram discussões sobre dificuldades no ensino de Botânica, nas quais os docentes compartilharam experiências e possibilidades de abordagem dos conteúdos. Mega et al. (2020, p. 15–16) também destacam experiências de Comunidades de Prática relacionadas à formação de professores de Ciências e à elaboração e circulação de propostas didáticas.
Outros desafios envolvem a abordagem de temas socialmente controversos, como evolução biológica e sexualidade, que podem estar associados a disputas sociais e tentativas de interferência na autonomia docente, conforme discutem Azevedo, Borba e Selles (2020).
Diante dessa diversidade, o levantamento das necessidades formativas deve considerar tanto os conhecimentos científicos e pedagógicos que os professores desejam aprofundar quanto as condições concretas em que desenvolvem seu trabalho.
Transforme desafios em temas formativos
Depois de identificar os problemas, a comunidade pode organizá-los por aproximação e discutir quais questões deseja aprofundar.
Por exemplo, dificuldades relacionadas ao desinteresse dos estudantes podem motivar encontros sobre metodologias investigativas, contextualização ou participação nas aulas. Já a insegurança para ensinar Genética pode indicar a necessidade de estudar conceitos científicos e discutir estratégias didáticas para esse conteúdo.
Nem todo desafio poderá ser resolvido pela comunidade. Problemas estruturais, como excesso de alunos por turma ou falta de recursos institucionais, também dependem de decisões que ultrapassam a atuação individual dos professores.
Ainda assim, essas situações podem ser analisadas coletivamente, permitindo reconhecer seus limites e discutir possibilidades de ação.
Figura 11Dos desafios aos temas formativos
1Identificar desafiosGerais da docência e específicos de Ciências e Biologia
2Organizar por aproximação
3Escolher prioridades juntosVotação, discussão ou outro acordo
4Percurso formativoAberto a novos temas
Exemplos da seção 3.3
Desinteresse dos estudantes→Encontros sobre metodologias investigativas, contextualização ou participação nas aulas
Insegurança para ensinar Genética→Estudo de conceitos científicos e discussão de estratégias didáticas
Problemas estruturais, como turmas numerosas→Análise coletiva dos limites e das possibilidades de ação
Como necessidades identificadas pelos professores se transformam em temas de estudo da comunidade (seção 3.3).
Escolha os temas coletivamente
Após organizar as necessidades, os participantes poderão definir prioridades, considerando a relevância dos temas, os interesses compartilhados e o tempo disponível.
Essa escolha pode ocorrer por votação, discussão coletiva ou outro procedimento acordado pelo grupo.
A comunidade também deve permanecer aberta a novos temas que surjam durante os encontros.
O objetivo não é elaborar uma programação baseada apenas nas dificuldades identificadas pelo organizador, mas construir um percurso formativo que faça sentido para os próprios professores.
Para apoiar esse processo, disponibilizamos um instrumento de mapeamento de desafios e necessidades formativas, que poderá ser preenchido e adaptado pelos integrantes da comunidade.
3.4Produção colaborativa de conhecimentos e materiais
Uma Comunidade de Prática em Rede (CoP-R) pode oferecer oportunidades para que os professores desenvolvam coletivamente planos de aula, jogos, sequências didáticas, apresentações, atividades investigativas e outros recursos pedagógicos.
Essas produções podem surgir de problemas identificados pelos próprios participantes, considerando suas experiências, necessidades e condições de trabalho.
Mega et al. (2020) identificam, em sua revisão sobre Comunidades de Prática no Ensino de Ciências, experiências relacionadas à formação docente e à elaboração e circulação de propostas didáticas. Bordignon e Trevisol (2022) também destacam a participação, a autonomia e a cooperação dos professores nos processos de inovação pedagógica.
Para organizar essa etapa, sugerimos um percurso que poderá ser adaptado pela comunidade.
Figura 12Percurso da produção colaborativa
1Escolher o que construirConteúdo, público e tipo de recurso
2Planejar e iniciarObjetivos, fundamentação e divisão de tarefas
3Compartilhar versões preliminaresDevolutivas do grupo
4Revisar e socializarVersão final e acervo da comunidade
As devolutivas da etapa 3 alimentam a revisão da etapa 4. Os direitos autorais e as autorizações são verificados antes de compartilhar.
As quatro etapas sugeridas na seção 3.4, que podem ser adaptadas pela comunidade.
Etapa 1 — Escolher o que construir
Os professores podem iniciar retomando os desafios e interesses identificados durante os encontros anteriores.
A partir dessas questões, cada grupo poderá escolher o conteúdo, o público-alvo e o tipo de recurso que deseja desenvolver.
Não é necessário que todos produzam o mesmo tipo de material. Alguns poderão elaborar jogos, enquanto outros poderão desenvolver planos de aula, sequências didáticas ou atividades investigativas.
A escolha deve considerar o que os integrantes reconhecem como relevante e viável para seus contextos de atuação.
Etapa 2 — Planejar e iniciar a produção
Após definir o tema, o grupo poderá discutir os objetivos pedagógicos, os conteúdos científicos envolvidos, as estratégias de ensino e os recursos necessários.
Nessa etapa, recomenda-se consultar materiais e referências que auxiliem na fundamentação das propostas.
Os integrantes também podem definir coletivamente como irão colaborar, considerando as possibilidades de contribuição e a disponibilidade de cada professor.
O material poderá ser desenvolvido em documentos compartilhados, apresentações editáveis ou outras ferramentas digitais acessíveis ao grupo.
Etapa 3 — Compartilhar versões preliminares
Antes de considerar o material concluído, recomenda-se reservar um encontro para que os grupos apresentem suas produções em desenvolvimento.
Os demais participantes poderão analisar as propostas, apresentar dúvidas, reconhecer potencialidades e sugerir melhorias.
Essa discussão pode considerar a correção científica dos conteúdos, a clareza das orientações, a adequação à etapa escolar e a viabilidade de utilização em diferentes contextos.
Etapa 4 — Revisar e socializar as produções
Após as devolutivas, os grupos poderão aperfeiçoar os materiais e preparar suas versões finais.
Recomenda-se reservar um último encontro para apresentar as produções revisadas, compartilhar orientações de utilização e discutir possíveis adaptações.
Os materiais poderão integrar um acervo da comunidade, desde que sejam respeitados os direitos autorais, a identificação dos responsáveis pela criação e as autorizações necessárias para seu compartilhamento.
Mais importante do que produzir muitos materiais é garantir tempo para que os professores participem de sua elaboração, discutam as escolhas pedagógicas e possam aperfeiçoar as propostas coletivamente.
3.5Acompanhamento, avaliação e continuidade
Ao longo do desenvolvimento de uma Comunidade de Prática em Rede (CoP-R), podem surgir dificuldades que exigem adaptações no planejamento inicial. Acompanhar a comunidade significa observar suas condições de funcionamento, ouvir os participantes e discutir possíveis ajustes.
Machado, Wives e Grandi (2019, p. 2002) identificaram dificuldades relacionadas à escassez de interações, à mediação e à utilização de ferramentas digitais entre os fatores associados ao abandono de comunidades virtuais. Bastos e Mourão (2026, p. 10) também destacam desafios relacionados à disponibilidade de tempo e à manutenção do envolvimento dos participantes.
Como lidar com dificuldades de participação?
Algumas medidas podem ajudar a enfrentar problemas recorrentes:
Falta de tempo e conflitos de agenda: consultar os integrantes sobre a necessidade de adaptar horários, frequência ou duração dos encontros.
Ausências frequentes: procurar compreender as dificuldades de participação, evitando interpretar toda ausência como desinteresse.
Participação desigual: diversificar as formas de contribuição, utilizando discussões orais, chat e atividades compartilhadas, sem obrigar todos a participar da mesma maneira.
Dificuldades tecnológicas: priorizar ferramentas acessíveis e oferecer orientações simples para sua utilização.
Sobrecarga nas atividades coletivas: revisar prazos e redistribuir responsabilidades conforme a disponibilidade dos integrantes.
Essas medidas devem ser discutidas com os professores, considerando que nem todos os obstáculos poderão ser resolvidos pela própria comunidade.
Como acompanhar e avaliar a comunidade?
A avaliação pode ocorrer durante o percurso, sem ficar restrita ao último encontro.
Recomenda-se reservar momentos breves para que os participantes expressem suas percepções sobre o funcionamento da CoP-R, a relevância dos temas e as atividades desenvolvidas.
Algumas perguntas podem orientar essa reflexão:
Os encontros estão atendendo às necessidades do grupo?
Quais discussões ou atividades foram mais significativas?
Que dificuldades estão prejudicando a participação?
O que podemos modificar nos próximos encontros?
Quais conhecimentos, experiências ou materiais foram compartilhados e desenvolvidos?
As respostas podem ser discutidas coletivamente ou reunidas em um formulário breve ao final do percurso.
É importante considerar que a satisfação dos participantes, a frequência e a quantidade de materiais produzidos não demonstram, isoladamente, a ocorrência de aprendizagem ou de transformações nas práticas pedagógicas.
Como favorecer a continuidade da CoP-R?
A continuidade não precisa significar a manutenção permanente dos mesmos encontros ou atividades.
Ao concluir um ciclo, os professores podem discutir se desejam continuar e quais condições seriam necessárias para isso.
Figura 13Acompanhar, avaliar e decidir os próximos passos
1AcompanharDurante todo o percurso
2Ouvir o grupoMomentos breves de avaliação
3AjustarHorários, prazos, ferramentas, tarefas
4Concluir o cicloDecisão coletiva sobre o futuro
Continuar
Definir novos temas
Reorganizar a frequência
Alternar a mediação
Manter um espaço de recursos
Iniciar outro ciclo formativo
Encerrar
Registrar as contribuições do ciclo
Deixar aberta a possibilidade de novas iniciativas
Acompanhamento, avaliação e continuidade (seção 3.5). Encerrar um ciclo também é uma decisão legítima.
Entre as possibilidades estão definir novos temas de interesse, reorganizar a frequência das reuniões, alternar a mediação, manter um espaço de compartilhamento de recursos ou iniciar outro ciclo formativo.
Souza, Araujo e Veit (2022, p. 14–15) ressaltam que os caminhos das comunidades não podem ser inteiramente previstos, pois se desenvolvem a partir das relações e necessidades dos participantes.
Assim, a decisão de continuar deve considerar os interesses do grupo, os vínculos construídos e a disponibilidade dos professores. Também é legítimo encerrar um ciclo, registrar suas contribuições e deixar aberta a possibilidade de futuras iniciativas.
Cultivar uma CoP-R envolve reconhecer dificuldades, avaliar coletivamente seu desenvolvimento e permitir que os participantes decidam os próximos caminhos da comunidade.
Por onde começar uma conversa entre professores? Quais temas podem mobilizar experiências, questionamentos e a construção conjunta de propostas pedagógicas?
Neste eixo, você encontrará dez pautas formativas inspiradas em desafios e experiências relacionados ao ensino de Ciências e Biologia, incluindo situações discutidas durante a CoP-R piloto.
As propostas abordam conteúdos científicos, estratégias de ensino e questões do cotidiano docente. Cada pauta apresenta uma breve fundamentação, perguntas para discussão, sugestões de atividades colaborativas e referências às experiências da comunidade.
Todas as pautas estão disponíveis em Word editável, permitindo que você adapte os objetivos, as perguntas, os recursos e a duração dos encontros conforme os interesses e as necessidades do seu grupo.
Você também poderá acessar materiais pedagógicos relacionados a cada proposta, disponíveis nos respectivos links e na Biblioteca de Recursos.
As pautas não constituem uma sequência obrigatória. São sugestões para apoiar o diálogo e a construção coletiva de conhecimentos, respeitando a autonomia dos participantes e as características de cada comunidade.
Galeria
As dez pautas
Selecione a pauta de seu interesse para ver a contextualização, conhecer o objetivo e baixar o arquivo editável em Word.
Modelos, instrumentos, planos de aula, jogos e referências para apoiar sua comunidade.
Ao longo deste guia, são apresentados materiais de apoio à organização, à mediação e ao desenvolvimento de Comunidades de Prática em Rede, além de recursos pedagógicos produzidos ou compartilhados durante a CoP-R piloto.
Para facilitar a consulta, esses materiais também estão reunidos na Biblioteca de Recursos, organizada por categorias. Nela, os professores poderão acessar modelos, instrumentos, planos de aula, atividades e referências complementares.
O Guia CoP-R é um produto educacional desenvolvido a partir da pesquisa de mestrado “Comunidades de Prática em Rede como ferramenta de formação continuada para professores de Biologia e Ciências”, realizada no Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
A pesquisa investiga como a participação em Comunidades de Prática em Rede (CoP-R) pode contribuir para a formação continuada e a inovação pedagógica de professores de Ciências e Biologia, considerando suas possibilidades, desafios e formas de implementação.
A proposta parte do reconhecimento de que os professores possuem conhecimentos construídos em suas experiências profissionais e podem ampliá-los por meio do diálogo, da reflexão e da elaboração conjunta de alternativas para os desafios do ensino.
Nossa experiência: a CoP-R piloto
Em 2025, foi organizada uma Comunidade de Prática em Rede com professores de Ciências e Biologia de diferentes contextos escolares.
A iniciativa recebeu 74 inscrições, e 41 pessoas tiveram presença registrada em pelo menos um dos oito encontros virtuais, realizados entre setembro e dezembro de 2025, ao longo de três meses.
74inscrições
41pessoas com presença registrada em pelo menos um encontro
8encontros virtuais, de setembro a dezembro de 2025
Durante os encontros, os participantes compartilharam experiências docentes, discutiram dificuldades do cotidiano escolar e exploraram estratégias pedagógicas. Também foram desenvolvidos planejamentos e materiais didáticos colaborativos, posteriormente apresentados e discutidos pelos integrantes da comunidade.
A experiência constituiu o contexto de investigação da pesquisa e ofereceu referências práticas para a elaboração deste guia.
Da experiência ao produto educacional
O Guia CoP-R reúne orientações, instrumentos e propostas formativas fundamentados na literatura acadêmica e nas experiências desenvolvidas durante a comunidade piloto.
Seu propósito é apoiar outros professores na criação e no desenvolvimento de suas próprias Comunidades de Prática em Rede, respeitando as características, os interesses e as condições de cada grupo.
O material não apresenta um modelo único de formação continuada. Ao contrário, oferece possibilidades de organização, mediação e colaboração que podem ser adaptadas a diferentes realidades escolares.
Autoria e vínculo institucional
Pesquisadora e autora: Niliene Aparecida de Souza Lima.
Instituição: Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
Programa: Mestrado Profissional em Ensino de Ciências (MPEC).
Área de concentração: Ensino de Biologia.
Linha de pesquisa: Formação de professores de Ciências.
Ano: 2026.
Os recursos pedagógicos produzidos colaborativamente durante a CoP-R piloto terão suas autorias identificadas individualmente na Biblioteca de Recursos.
Obras citadas nos textos do guia e referências previstas para as dez pautas formativas.
ALENCAR, Elaine Paula Gonçalves. Pensar biologicamente é pensar evolutivamente: jogo didático como facilitador da aprendizagem dos conhecimentos em biologia evolutiva e seleção natural, com base na teoria da aprendizagem significativa. 2019. Trabalho de Conclusão de Mestrado (Mestrado Profissional em Ensino de Biologia) — Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2019. Disponível em: https://www.profbio.ufmg.br/wp-content/uploads/2021/01/TCM_Elaine_final_alterada.pdf.
ANDRÉ, Marli; MARTINS, Francine de Paulo. Reflexões sobre a formação de professores: um diálogo com Marli André. Devir Educação, v. 4, n. 1, p. 188–198, 2020. DOI: 10.30905/ded.v4i1.241.
AZEVEDO, Maicon; BORBA, Rodrigo Cerqueira do Nascimento; SELLES, Sandra Escovedo. Ameaças à profissão docente no Brasil: desafios ao ensino de Ciências e Biologia em debate. Fronteiras & Debates, Macapá, v. 7, n. 2, p. 43–57, 2020. DOI: 10.18468/fronteiras.2020v7n2.p43-57.
BASTOS, Nathália; MOURÃO, Luciana. Principais características e impactos das comunidades de prática no trabalhador da educação: uma revisão sistemática da literatura. Revista Brasileira de Educação, v. 31, e310066, 2026. DOI: 10.1590/S1413-24782026310066.
BORDIGNON, Lorita Helena Campanholo; TREVISOL, Maria Teresa Ceron. Ensino, aprendizagem, práticas pedagógicas e inovação educacional: tecendo diálogos. Revista de Educação PUC-Campinas, v. 27, e225389, p. 1–15, 2022. DOI: 10.24220/2318-0870v27e2022a5389.
BORGHESAN, Jéssica Maila. Atividades didáticas de rotação por estações: proposições para o ensino de Ciências. 2023. Produto educacional (Mestrado Profissional em Ensino de Ciências, Matemática e Tecnologias) — Universidade do Estado de Santa Catarina, Joinville, 2023. Disponível em: https://educapes.capes.gov.br/handle/capes/742334.
BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1990. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 17 out. 2026.
BRASIL. Lei nº 9.279, de 14 de maio de 1996. Regula direitos e obrigações relativos à propriedade industrial. Brasília, DF: Presidência da República, 1996a. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9279.htm. Acesso em: 17 out. 2026.
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF: Presidência da República, 1996b. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 17 out. 2026.
BRASIL. Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. Altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1998. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9610.htm. Acesso em: 17 out. 2026.
BRASIL. Lei nº 15.211, de 17 de setembro de 2025. Dispõe sobre a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais (Estatuto Digital da Criança e do Adolescente). Brasília, DF: Presidência da República, 2025. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/l15211.htm. Acesso em: 17 out. 2026.
CAMILLO, Cíntia Moralles; GRAFFUNDER, Karine Gehrke; SEPEL, Lenira Maria Nunes. Desafios do planejamento didático na formação inicial de professores de Ciências da Natureza. Revista Cocar, v. 21, n. 39, p. 1–16, 2024. Disponível em: https://periodicos.uepa.br/index.php/cocar/article/view/7297.
CARVALHO, Anna Maria Pessoa de (org.). Ensino de Ciências por investigação: condições para implementação em sala de aula. São Paulo: Cengage Learning, 2013.
DOIRADO, Edmilson Fernandes; GIROTO, Claudia Regina Mosca; SCHWARZ, Fabio Colasso. Discursivização sobre indisciplina e doenças do não se comportar na perspectiva da medicalização da educação. Educação, Santa Maria, v. 49, e114, p. 1–30, 2024. DOI: 10.5902/1984644483843.
ENGLE, Randi A.; CONANT, Faith R. Guiding principles for fostering productive disciplinary engagement: explaining an emergent argument in a community of learners classroom. Cognition and Instruction, v. 20, n. 4, p. 399–483, 2002.
FANTE, Cleonice Maria. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 6. ed. Campinas: Verus, 2015.
FREDRICKS, Jennifer A.; BLUMENFELD, Phyllis C.; PARIS, Alison H. School engagement: potential of the concept, state of the evidence. Review of Educational Research, v. 74, n. 1, p. 59–109, 2004. DOI: 10.3102/00346543074001059.
GATTI, Bernardete Angelina; BARRETTO, Elba Siqueira de Sá; ANDRÉ, Marli Eliza Dalmazo Afonso de; ALMEIDA, Patrícia Cristina Albieri de. Professores do Brasil: novos cenários de formação. Brasília: UNESCO, 2019.
IMBERNÓN, Francisco; SHIGUNOV NETO, Alexandre; SILVA, Andreia C. da. Reflexões sobre o conhecimento na formação de professores em comunidade de prática. Revista Iberoamericana de Educación, v. 82, n. 1, p. 161–172, 2020. DOI: 10.35362/rie8213663.
LOPES, Carlos Douglas Paiva. Reflexão crítica sobre microplásticos: o papel das aulas práticas com materiais recicláveis na educação ambiental transformadora. 2026. 97 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de Biologia) — Universidade Estadual do Piauí, Teresina, 2026. Disponível em: https://sistemas2.uespi.br/handle/tede/4076.
MACHADO, Giovanni Bohm; WIVES, Leandro Krug; GRANDI, Roges. As comunidades de prática como ferramenta para formação continuada de professores: percepções docentes sobre o uso da tecnologia para compartilhamento e aprimoramento das práticas pedagógicas. In: SBIE, 30., 2019. Anais [...], p. 1995–2004. DOI: 10.5753/cbie.sbie.2019.1995.
MEDEIROS, Laura Telles. Educação sexual no ensino de Biologia e prevenção da gravidez na adolescência: ouvindo estudantes e falando para professores e professoras. 2020. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de Biologia) — Universidade Federal de Juiz de Fora, Governador Valadares, 2020. Disponível em: https://repositorio.ufjf.br/jspui/handle/ufjf/12280.
MEGA, Daniel Farias et al. Comunidades de Prática no Ensino de Ciências: uma revisão da literatura de 1991 a 2018. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 42, e20190264, 2020. DOI: 10.1590/1806-9126-RBEF-2019-0264.
MELLO, Rodrigo Vasconcelos Machado de; REZENDE FILHO, Luiz Augusto Coimbra de. Turvamento entre ficção e conhecimento científico em filmes de ficção científica no ensino de Ciências. Ensaio: Pesquisa em Educação em Ciências, v. 26, e46246, 2024. DOI: 10.1590/1983-21172022240201.
MENEZES, Maria da Conceição Vieira de Almeida et al. Recursos didáticos utilizados para o ensino e aprendizagem de seleção natural e deriva genética com estudantes do Ensino Médio. Revista Cocar, v. 20, n. 38, 2024. Disponível em: https://periodicos.uepa.br/index.php/cocar/article/view/8022.
MONTEIRO, Simone Souza; VARGAS, Eliane Portes; REBELLO, Sandra Monteiro. Educação, prevenção e drogas: resultados e desdobramentos da avaliação de um jogo educativo. Educação & Sociedade, v. 24, n. 83, p. 659–678, 2003. DOI: 10.1590/S0101-73302003000200018.
MOSER, Alvino. Formação docente em comunidades de prática. Revista Intersaberes, Curitiba, v. 5, n. 10, p. 210–244, jul./dez. 2010. DOI: 10.22169/revint.v5i10.172.
MOTA, Diego; SANTOS NASCIMENTO, Roseday. Invertendo a sala de aula para aprender-ensinar Biologia: motivação, protagonismo e engajamento dos estudantes. Revista Insignare Scientia, v. 6, n. 1, p. 430–446, 2023. DOI: 10.36661/2595-4520.2023v6n1.13363.
NÓVOA, António. Devolver a formação de professores aos professores. Cadernos de Pesquisa em Educação, Vitória, v. 18, n. 35, p. 11–22, 2012. DOI: 10.22535/cpe.v35i1.4927.
NÓVOA, António. Firmar a posição como professor, afirmar a profissão docente. Cadernos de Pesquisa, v. 47, n. 166, p. 1106–1133, 2017. DOI: 10.1590/198053144843.
NÓVOA, António. Conhecimento profissional docente e formação de professores. Revista Brasileira de Educação, v. 27, e270129, 2022. DOI: 10.1590/S1413-24782022270129.
PASSOS, Vinicius Mascarenhas dos; SOUZA, Marcos Lopes de; MOREIRA, Núbia Regina. “A pró só fala sobre gravidez e doenças”: as perspectivas de estudantes e docentes sobre a disciplina Educação para Sexualidade. Revista Cocar, v. 20, n. 38, p. 1–20, 2024. DOI: 10.31792/rc.v20i38.7035.
POZO, Juan Ignacio. Aprendizes e mestres: a nova cultura da aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2002.
RODRIGUES, Márcio Urel; SILVA, Luciano Duarte da; MISKULIN, Rosana Giaretta Sguerra. Conceito de comunidade de prática: um olhar para as pesquisas na área da Educação e Ensino no Brasil. Revista de Educação Matemática, São Paulo, v. 14, n. 16, p. 16–33, 2017. Disponível em: https://www.revistasbemsp.com.br/index.php/REMat-SP/article/view/290.
SALATINO, Antonio; BUCKERIDGE, Marcos. “Mas de que te serve saber botânica?”. Estudos Avançados, v. 30, n. 87, p. 177–196, 2016. DOI: 10.1590/S0103-40142016.30870011.
SALVADOR, Daniel Fábio et al. Comunidade virtual de aprendizagem para professores de Biologia: avaliação da utilização e desafios. Revista Electrónica de Investigación en Educación en Ciencias, v. 12, n. 1, p. 12–22, 2017. DOI: 10.54343/reiec.v12i1.214.
SANCHES, Rosivar; BATISTA, Silvia; MARCELINO, Valéria. Teoria da Aprendizagem Significativa como base para Sala de Aula Invertida. Revista Cocar, v. 15, n. 33, 2021. Disponível em: https://periodicos.uepa.br/index.php/cocar/article/view/4695.
SANTOS, Aline Coêlho dos; RAUSCH, Rita Buzzi. Comunidade de Prática em Rede como possibilidade à formação continuada de professores. Revista Cocar, v. 22, n. 40, p. 1–16, 2025. Disponível em: https://periodicos.uepa.br/index.php/cocar/article/view/7538.
SASSERON, Lúcia Helena. Alfabetização científica, ensino por investigação e argumentação: relações entre Ciências da Natureza e escola. Ensaio: Pesquisa em Educação em Ciências, v. 17, n. esp., p. 49–67, 2015. DOI: 10.1590/1983-2117201517s04.
SASSERON, Lúcia Helena; SOUZA, Tadeu Nunes de. O engajamento dos estudantes em aula de Física: apresentação e discussão de uma ferramenta de análise. Investigações em Ensino de Ciências, v. 24, n. 1, p. 139–153, 2019. DOI: 10.22600/1518-8795.ienci2019v24n1p139.
SATO, Regina Keiko; GUÉRIOS, Ettiène Cordeiro; FERREIRA, Jacques de Lima. Metodologias ativas: tipos, conceitos e contribuições para a educação. Revista Cocar, v. 23, n. 41, 2025. Disponível em: https://periodicos.uepa.br/index.php/cocar/article/view/4137.
SEPÚLVEDA, Claudia; EL-HANI, Charbel Niño. Quando visões de mundo se encontram: religião e ciência na trajetória de formação de alunos protestantes de uma licenciatura em Ciências Biológicas. Investigações em Ensino de Ciências, v. 9, n. 2, p. 137–175, 2004. Disponível em: https://ienci.if.ufrgs.br/index.php/ienci/article/view/533.
SILVA, Sarah Eliane de Matos; SILVA, Fábio Augusto Rodrigues e; TAVARES, Juliana Carvalho. Engajamento disciplinar produtivo e práticas epistêmicas: construtos para avaliação da aprendizagem em uma atividade sobre drogas no ensino médio. Revista Cocar, n. especial 22, 2023. Disponível em: https://periodicos.uepa.br/index.php/cocar/article/view/6782.
SOUZA, Douglas Grando de; ARAUJO, Ives Solano; VEIT, Eliane Angela. Cultivo de comunidades de prática na formação continuada de professores em Educação em Ciências: uma proposta. Ciência & Educação, v. 28, e22033, 2022. DOI: 10.1590/1516-731320220033.
TAPIA, Jesús Alonso; FITA, Enrique Colomé. Motivação e aprendizagem escolar. São Paulo: Loyola, 2000.
URSI, Suzana et al. Ensino de Botânica: conhecimento e encantamento na educação científica. Estudos Avançados, v. 32, n. 94, p. 7–24, 2018. DOI: 10.1590/S0103-40142018.3294.0002.
WENGER, Etienne. Communities of Practice: learning, meaning, and identity. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.